A região de Campinas, localizada em sua maior parte na bacia do rio Piracicaba, voltou a viver nos últimos dias uma situação que para muitos já era superada. No caso, a ocorrência de eventos ligados ao cenário socioambiental, reforçando a necessidade de um olhar cada vez mais atento aos recursos hídricos.
Em Piracicaba, especificamente, foram três mortandades de peixes no mês de julho no rio que dá nome à cidade. As estimativas conservadoras apontam para mais de 250 mil peixes mortos, em decorrência de descarte irregular de resíduos no corpo hídrico, o que levou à queda brusca do nível de oxigênio na água, agravando o quadro que já era sensível pela falta de chuvas.
As imagens assustadoras desses episódios fizeram recordar na memória de muita gente, inclusive da minha, as mortandades de peixes que aconteciam em Piracicaba entre o final da década de 1970 e início da década de 1980.
Aquelas mortandades e mais a polêmica despertada pela construção do Sistema Cantareira alimentaram um forte movimento popular em Piracicaba, que tive a oportunidade de acompanhar no início de minha carreira jornalística.
Foram muitas manifestações nas margens do rio que é a própria base cultural da cidade. Aquele movimento acabou se disseminando e foi o elemento crucial para a formulação das leis de recursos hídricos no estado de São Paulo e no Brasil. Do mesmo modo, a mobilização iniciada em Piracicaba também resultou na criação do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), que se tornou importante protagonista do debate sobre os recursos hídricos na região, no estado e em todo país.
Enfim, ver aquelas toneladas de peixes mortos no rio Piracicaba soou o alerta, ou ao menos deveria ter soado, sobre a situação dos recursos hídricos na região. Apesar dos avanços em termos de legislação e da própria consciência ambiental na região, episódios inaceitáveis de agressão à natureza, e especificamente à água e aos seres que dela dependem, ainda representam triste ameaça.
Parece claro que não se pode acomodar nunca em relação aos recursos naturais e, no contexto da região do PCJ, no caso em particular dos recursos hídricos, que já são escassos em razão da enorme densidade populacional regional.
A atenção à água, a partir do que ocorre nos rios, deve ser então redobrada, considerando o notório e já tantas vezes citado agravamento das mudanças climáticas. Os impactos das mudanças do clima, derivados basicamente da queima exagerada de combustíveis fósseis, já são visíveis em todo mundo e em todo território brasileiro, como temos registrado nessa coluna.

No caso em particular dos recursos hídricos, esses impactos ficaram evidentes por dados recentes divulgados pelo projeto MapBiomas. Segundo o MapBiomas, entre 1985 e 2023 o território brasileiro perdeu 30% de espaços cobertos por água natural. Em outras palavras, o país que tem 12% da água doce do mundo está de alguma forma secando, o que pode ser atribuído a vários fatores, como práticas agrícolas inadequadas, avanço da urbanização e, claro, os efeitos das mudanças do clima de modo global.
A extensão da perda de área coberta por água varia de acordo com o bioma. A maior variação, de 80% de redução em 2023 em relação a 1985, ocorreu no Pantanal, onde não por acaso proliferaram queimadas históricas nas últimas semanas.
Em seguida aparece o Cerrado, onde a queda na cobertura natural de água foi de 53% no mesmo período. Como se sabe, o Cerrado tornou-se a principal fronteira agrícola brasileira nas últimas décadas. Ainda segundo o MapBiomas, a redução de área coberta por água foi também de 53% na Caatinga, onde foi agravada a situação dos territórios semiáridos, alguns deles já com indicadores similares aos de desertos.
A perda foi de 16% na Amazônia (como a região é a maior do país, em termos reais a superfície perdida de água foi a maior entre os biomas) e de 41% no Pampa, na Região Sul, e também de 41% na Mata Atlântica. Este é precisamente o bioma onde está localizada a região de Campinas, na bacia do PCJ. As estiagens intensas têm ocorrido com alguma regularidade na região. A mais crítica delas foi em 2014, quando o Sistema Cantareira quase secou totalmente.
Pois esse fantasma parece que volta a rondar a região. Segundo o Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), 23 cidades da região ampliada de Campinas, quase todas na bacia do Rio Piracicaba, apresentavam situação de seca severa em meados de julho. Um município, Santo Antônio do Jardim, vivia situação de seca extrema.
No Brasil todo, mais de mil cidades estavam em situação de seca severa e extrema no mesmo período, conforme o Cemaden. Reflexos cristalinos das mudanças climáticas, associadas ao fenômeno do El Niño.
São muitos alertas, que não podem ser negligenciados. No momento existe o projeto de construção de grandes reservatórios na região, nos municípios de Pedreira e Amparo. Projetos controversos, mas que apontam para alguma melhoria na segurança hídrica.
Entretanto, a região pode e deve fazer muito mais, pelos sinais das últimas semanas. São várias iniciativas complementares que precisam ser alimentadas e uma delas, sem dúvida, é o aprofundamento dos programas de comunicação e educação socioambiental, em todos os níveis de ensino.
As mortandades de peixe no rio Piracicaba, em específico, comprovaram que a necessária consciência ambiental, que de alguma forma avançou na sociedade, ainda não alcançou totalmente alguns atores sociais.
A região tornou-se referência em discussão proativa sobre água no Brasil, sendo reconhecida inclusive em âmbito internacional. No panorama do agravamento das mudanças climáticas, precisa e pode intensificar ações voltadas para o uso adequado e sustentável dos recursos hídricos, em benefício da biodiversidade e da vida humana em geral.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












