“Adeus ano velho / Feliz Ano-Novo”, a popular canção que faz parte da tradição da virada em muitas famílias brasileiras, pode trazer significados profundos. Nessa época do ano, é comum que as pessoas reflitam o que gostariam de levar e o que desejam abandonar no novo ano que começa?
Nesse balanço emocional, o perdão costuma surgir como um ponto essencial. Perdoar não é fingir que nada aconteceu, nem apagar as marcas de um erro ou de uma ferida. É, antes de tudo, libertar-se do peso que sentimentos como a mágoa, o ressentimento ou a raiva podem causar. É escolher seguir em frente com o coração mais leve.
A psicóloga Gláucia Melo compartilha uma perspectiva sensível e necessária sobre o tema.
“O final do ano e o início de um novo ciclo costumam nos lembrar de encontros, histórias e afetos. Mas também podem trazer à tona mágoas antigas, culpas e conflitos não resolvidos. Para a psicologia, perdoar não é esquecer o que aconteceu, nem fingir que não doeu. É escolher não continuar carregando, todos os dias, esse peso que machuca”, diz.
Ela ainda acrescenta: “Quando uma pessoa perdoa alguém, ela também está se perdoando. Não porque o outro mereça, mas porque ela merece ficar em paz. O perdão não é algo que acontece no outro, mas dentro de quem escolhe perdoar. Perdão pode ser compreendido como um processo de aceitação da experiência passada, que reduz a evitação experiencial e amplia a flexibilidade psicológica, permitindo respostas mais alinhadas aos valores pessoais”, completa a psicóloga.
Esse olhar mais gentil para si mesmo abre espaço para o autoperdão, muitas vezes esquecido, mas fundamental. “Errar faz parte da caminhada, e reconhecer isso com compaixão é um dos maiores atos de crescimento”, diz Glaucia.
O pedagogo e terapeuta integrativo Paulo Tonhasolo nos convida a uma pausa ainda mais profunda.
“Há um silêncio especial que envolve o fim do ano, como se a própria vida nos convidasse a uma pausa mais consciente. Entre encerramentos e começos, somos conduzidos a refletir sobre o que foi vivido, sobre o que foi aprendido e, sobretudo, sobre aquilo que já pode ser integrado com mais suavidade”, diz.
Para ele, perdoar é esse ato alquímico. É transformar memória em sabedoria, ferida em aprendizado, história em consciência. Por isso, a própria palavra revela o mistério: for give (dar além do esperado); perdonare (doar completamente); per-dão (atravessar-se em entrega total). Perdoar é dar-se inteiro à vida, sem reservas.
Paulo completa que perdoar é confiar no fluxo da vida, na transformação inevitável que habita cada ser. “Não como uma exigência, mas como cuidado amoroso”, diz.
Talvez o perdão comece pequeno: um afrouxar no peito, um gesto íntimo de não carregar mais o que já ensinou o necessário.
“Que neste fim de ciclo possamos deixar para trás o que já pode descansar. Sem culpa. Sem julgamento. Sem pressa. Apenas com a confiança de que caminhar mais leve também é um ato de amor”, afirma o terapeuta integrativo.
Sou jornalista e gosto de refletir sobre temas e palavras que ganham mais força em algumas épocas do ano. Enquanto escrevia este texto escutava a canção “Novo Ciclo”, de Vozes da Nova Terra & DJ Healer e escolhi um trecho para ser o título deste texto: “Deixa ir, deixa fluir, o que passou já não está aqui; sinta o novo, deixe entrar o ciclo é vida, pronto pra girar.”
Que neste novo ano possamos seguir com mais leveza, consciência e amor, para conosco, para com os outros e para com a vida.
Para escutar a canção completa:







