Fico inconformado com as inúmeras demandas sobre direitos e críticas ao Estado, como se os problemas fossem somente reflexo das ações do governo. Raramente encontramos empresas ou cidadãos que façam o “mea culpa” e reconheçam suas responsabilidades.
Os direitos e deveres do governo, dos empresários e da sociedade deveriam ter uma relação recíproca. Assim como uma moeda possui dois lados com a mesma dimensão, direitos e deveres são equivalentes, pois são faces da mesma moeda.
A vida é uma alternância entre direitos e deveres. Como cidadãos, quando indefesos, temos o direito à proteção. Entretanto, quando tudo está bem, precisamos cuidar dos deveres e das obrigações.
No governo e nas empresas, a relação é a mesma, pois há momentos em que nossos direitos vêm em primeiro lugar e há outras situações em que os nossos deveres é que devem ser exercidos.
Infelizmente, a sociedade brasileira pouco exerce seus deveres e, quando as coisas não vão bem, joga a culpa no governo. Esse, por sua vez, coloca-se acima da sociedade, não entende corretamente o seu papel e esquece de incluir no debate os deveres de todos, inclusive os seus. As empresas reclamam, mas pouco ou nada fazem para ajudar a governar. É um jogo de empurra-empurra.
Se todos cumprissem seus deveres, não haveria necessidade de luta pelos direitos.
Em 1820, Alexis de Tocqueville já dizia que democracia é participação e responsabilidade de todos para todos. O poeta José Américo S. Fontes diz que não pode haver oceano de direitos onde há deserto de deveres, pois somente o dever constrói os nossos direitos, e completa: feliz seria o dia em que não se elogiasse mais aquele que cumpre o seu dever de cidadania.
Numa democracia, governantes e legisladores são pessoas escolhidas pela sociedade para ajudarem nas tarefas de organizar a nação. A sociedade deve exercer a governança e os governantes executá-la.
No Brasil, a cidadania é pouco exercida. A sociedade interpreta de forma errada sua responsabilidade, omitindo-se, e acaba estimulando os governantes a agirem como donos do poder.
Os modelos que funcionam colocam o cidadão em seus vários papéis sociais: governante, livre empresário e cidadão. Ele se torna um agente pró-ativo na governança da nação.
Está na hora de assumirmos nossos deveres, pois eles são o outro lado dessa moeda que conhecemos tão bem: a que traz nossos direitos em uma das faces.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar












