Por Fernanda Lagoeiro
A tarde era calma e sem atividades no Centro Cultural Louis Braille de Campinas, exceto pelo barulho incessante das impressoras da gráfica. A sala de produção, aos poucos, está se expandindo e se transformando em um portal para um universo pouco visto, mas essencial: o mundo tátil das pessoas com deficiência visual.
Fundada há cerca de 56 anos, a entidade expandiu sua atuação nos anos 80 ao instalar a gráfica, que hoje é motor de acessibilidade em várias frentes. Criada para atender a demandas da ONG e materiais para as atividades, passou de instrumento interno para uma estrutura de impacto social maior, atendendo setores externos e se tornando relevante para o País.
Atualmente, a produção semanal é alta, e inclui cardápios, cartões de visita, livros e apostilas, placas de atendimento prioritário, provas e até adesivos, para redes como o Burger King e grandes empresas em todo o Brasil.
Como funcionam as atividades
No centro de todo esse trabalho está uma figura simbólica: o diretor voluntário da ONG, o senhor “Benê”, como é conhecido Benedito João Bertola, de 65 anos, e que antes era atendido pela própria entidade.
Após um acidente de carro voltando de uma partida do seu time do coração, o Palmeiras, tornou-se deficiente visual.
A partir daí, buscou auxílio de adaptação, se envolveu com o trabalho do Centro Cultural e acabou assumindo a direção. Mas hoje, na gráfica, outra protagonista aparece: a jovem Bruna Machado, que está há apenas um ano nas operações. Com ela, o elo entre a técnica de impressão e o significado de cada relevo se faz visível.
Majoritariamente, a gráfica produz cardápios adaptados em braile, ou seja, menus inteiros, com preços, comidas e bebidas, transpostos em relevo para que pessoas com deficiência visual possam “ler” sozinhas.
Mas não apenas — o diferencial da gráfica está em atender as pessoas que têm baixa visão também. “Por isso é importante fazer esse trabalho com quem realmente entende de deficiência visual. Não é apenas passar para o braile, traduzir. Ainda que uma pessoa possa ler em braile, se ela tiver baixa visão, vai precisar de um acompanhante para ajudar a ler o cardápio. Já a impressão que fazemos aqui é adaptada para as diferentes realidades”, explica o senhor Benê.
O mais recente salto da gráfica veio com a aquisição de uma impressora 3D — inovação que permitirá ampliar o leque de produção: além de cardápios e materiais em braile, brindes da ONG, peças táteis e protótipos poderão sair da mesma linha de produção.
A integração da impressão 3D indica que o ofício está deixando de ser o de apenas uma “gráfica de braile” tradicional para se tornar uma ferramenta de mudança e que, ao mesmo tempo, ajuda a manter a parte financeira da ONG.
A gráfica do Centro Cultural Louis Braille de Campinas já atende todo o Brasil, incluindo grandes marcas — por exemplo, os cardápios em braile produzidos para redes como Burger King e o restaurante Barbacoa — o que reforça que a acessibilidade não é tema apenas de pequena escala, mas parte do jogo das grandes estruturas gastronômicas e empresariais.
Além dos cardápios, a gráfica entrega materiais educacionais para pessoas com deficiência visual, documentos adaptados e, no ano passado, assumiu também o Câmara Braille, um informativo em braile sobre tudo o que acontece nas sessões ordinárias do legislativo de Campinas.

A realidade em Campinas
Falando em lei, a obrigatoriedade dos cardápios em braile já está parcialmente vigente no Brasil: a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) estabelece que pessoas com deficiência têm direito à acessibilidade e ao acesso a bens e serviços em formato acessível.
O Projeto de Lei 1550/2019 prevê que bares, lanchonetes e restaurantes disponibilizem “ao menos um exemplar de seu cardápio em braile”. E diversos municípios também têm seus próprios projetos de lei em favorecimento.
Em Campinas, a Lei Ordinária nº 9.571/1997 obriga restaurantes, lanchonetes, churrascarias e estabelecimentos similares a oferecer cardápios e relações de preços em sistema braile para clientes com deficiência visual, enquanto o Decreto Municipal nº 22.605/2023 complementa a legislação ao definir os formatos acessíveis que devem ser disponibilizados nesses locais.
Porém, a realidade não é tão inclusiva quanto poderia.
De acordo com a pesquisa “Vozes Campineiras”, realizada pela Quaest Pesquisa e Consultoria, e divulgada em parceria com a Fundação FEAC no encontro “Territórios em Movimento por cidades prósperas para todos” realizado no último dia 8 de outubro, Campinas não é uma cidade tão acolhedora para PCDs (pessoas com deficiência) e pessoas pobres – dado constatado pela maioria dos 1.002 moradores entrevistados (com 51 pontos registrados).
E é nas regiões mais pobres da cidade que as pessoas veem mais dificuldade para PCDs viverem bem, como as regiões Centro-Leste, Centro-Oeste e Sudoeste, em bairros como Satélite Íris, Jardim Paranapanema e Nova Aparecida, por exemplo.
Na sala da gráfica do Centro Cultural Louis Braille, quando um cardápio sai do rolo e os pontos em relevo se formam, há mais do que papel impresso: há acessibilidade e voz.
Com uma linha que cruza o social, o técnico e o simbólico, a iniciativa não se trata apenas de “ler” braile, mas de fazer a sociedade inteira conquistar uma nova leitura: de igualdade, de inclusão e de pertencimento.
Nota de rodapé:
Para realizar essa reportagem, visitei três bares da cidade, um na região do Cambuí, outro no Taquaral, e um terceiro no centro da cidade, e apenas um deles oferecia cardápio em braile.

Fernanda Lagoeiro é jornalista formada pela PUC-Campinas, com especialização em Divulgação de informação Científica pela USP. Cobre majoritariamente saúde, meio ambiente, empreendedorismo e terceiro setor.












