A ausência paterna na infância não é apenas um vazio externo, mas uma falta simbólica que, sob a ótica da psicanálise, reverbera profundamente na constituição psíquica do sujeito. O pai, enquanto função, não é somente a figura física que participa do cotidiano; ele representa a lei, a mediação e o limite que estruturam o desejo e ajudam a organizar a vida emocional da criança. Quando essa função se ausenta; seja por abandono, distância emocional, passividade, idealização excessiva ou presença intermitente, algo no campo psíquico perde sustentação, e o sujeito cresce tentando significar o que nunca foi nomeado. Assim, instala-se uma vivência de desamparo, que costuma reaparecer anos depois disfarçada de ansiedade, insegurança ou dificuldade para se vincular. Venha comigo refletir sobre essa pauta extremamente atual, por gentileza.
Na falta dessa referência paterna, a criança tende a construir sentidos próprios para compreender sua realidade, elaborando fantasias que tentam preencher a lacuna deixada. Muitas vezes, esse movimento inconsciente produz sentimentos de inadequação, a sensação de ter que “provar valor” constantemente, ou, ao contrário, o medo de falhar e decepcionar qualquer figura de autoridade.
A ausência do pai também impacta diretamente a relação com os limites e com a própria capacidade de escolha, fazendo com que a vida adulta se torne um território marcado por dúvidas persistentes e dificuldades na tomada de decisões. O sujeito cresce, mas permanece preso à busca por um olhar que nunca o reconheceu ou nunca esteve disponível para sustentar seu processo de amadurecimento emocional.
Ao longo da vida adulta, essas marcas se manifestam de maneiras diversas. Relacionamentos afetivos podem reproduzir, de forma inconsciente, dinâmicas de abandono ou de dependência emocional. A pessoa pode se aproximar de parceiros indisponíveis, repetir ciclos de frustração ou, ao contrário, evitar intimidade por medo de reviver a dor original. No campo profissional, a ausência paterna pode se expressar como uma constante autocrítica, sensação de insuficiência ou necessidade de aprovação, dificultando que o indivíduo reconheça suas próprias conquistas. A psicanálise compreende essas repetições como tentativas de elaboração: o sujeito tenta, na vida adulta, ressignificar aquilo que lhe faltou na infância.
Também é comum que a ausência paterna influencie a forma como a pessoa enxerga sua própria identidade. O pai simbólico contribui para a construção de referências internas que ajudam a diferenciar o “eu” do “outro”, a estabelecer limites e a sustentar o desejo.
Sem essa função, o sujeito pode sentir-se deslocado, com dificuldade de se reconhecer como alguém capaz de construir seus próprios caminhos. Muitas vezes, surge a sensação de vazio, uma espécie de eco emocional que aponta para aquilo que não foi vivido, mas que insiste em permanecer como marca.
Contudo, o que a psicanálise também nos mostra é que a ausência pode ser elaborada. Quando o sujeito se permite olhar para sua história com profundidade, compreender suas repetições e escutar aquilo que seu inconsciente tenta dizer, abre-se a possibilidade de reconstruir o lugar interno do pai, não como alguém idealizado ou ausente, mas como uma função psíquica que pode ser reelaborada.
A cura, nesse caso, não exige um retorno do pai real, mas sim que o sujeito encontre em si mesmo a autorização para viver, desejar e existir sem carregar o peso da falta como destino.
Reconhecer essas marcas não é um sinal de fraqueza, mas um ato de coragem. É o início de um processo de subjetivação em que o adulto, finalmente, aprende a acolher a criança que ficou à espera.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







