Nas últimas décadas, a cultura ocidental atravessou uma transformação profunda em seus modos de viver, desejar e sofrer. Se antes os laços sociais, os papéis e as narrativas de sentido pareciam mais estáveis, hoje o sujeito se vê imerso em um cenário marcado pela velocidade, pela substituição constante e pela fragilidade dos vínculos. A psicanálise observa que o sofrimento psíquico nunca está separado do contexto histórico: ele é, em grande parte, um sintoma do tempo em que se vive.
Zygmunt Bauman descreveu essa passagem como a transição de uma modernidade “sólida” para uma “líquida”, na qual nada é feito para durar. Nessa fluidez, o indivíduo torna-se o principal responsável por seu sucesso, sua felicidade e até por seu fracasso. O mal-estar, que antes encontrava alguma contenção em estruturas coletivas mais firmes, passa a ser vivido como falha pessoal, frequentemente nomeada por diagnósticos que se multiplicam.
Do ponto de vista psicanalítico, é inevitável perguntar se parte daquilo que hoje chamamos de depressão não está ligada a uma exigência cultural de felicidade imediata e constante.
Schopenhauer já alertava que o desejo, quando satisfeito, rapidamente dá lugar ao tédio, revelando um vazio estrutural da condição humana. Em uma cultura que promete prazer contínuo e intolerância à frustração, o encontro com os limites da realidade pode ser experimentado como algo insuportável.
Nesse cenário, a medicalização do sofrimento aparece muitas vezes como resposta rápida a angústias que talvez também convoquem reflexão, elaboração simbólica e reconhecimento de que o mundo não existe para satisfazer plenamente nossos desejos.
Diante disso, resta uma inquietação que atravessa tanto a psicanálise quanto a crítica cultural: será que o aumento dos diagnósticos e do uso de medicamentos psiquiátricos não revela, em parte, a dificuldade contemporânea de aceitar a frustração, o vazio e o fato de que a existência humana, em sua essência, nunca foi feita para garantir felicidade permanente?
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br









