Entrar em 2026 repete um ritual já conhecido: a sensação de que algo em nós precisa mudar, ser corrigido ou superado. A virada do calendário funciona como um marco simbólico poderoso, alimentando a fantasia de recomeço absoluto, como se o tempo cronológico tivesse a capacidade de reorganizar conflitos psíquicos antigos. No entanto, à luz da psicanálise, essa expectativa revela menos sobre transformação genuína e mais sobre a pressão que exercemos sobre nós mesmos.
As promessas feitas na virada do ano raramente nascem do desejo autêntico. Em grande parte, elas respondem ao olhar do outro, às comparações silenciosas e às exigências de uma cultura que valoriza desempenho, produtividade e sucesso contínuo. Confundimos crescer com produzir mais, melhorar com não falhar, e o ideal de eu se impõe de forma tirânica. O sujeito, então, passa a viver em função de metas que não dialogam com sua história, seus limites e suas faltas.
Esse excesso de exigência cobra um preço alto. Quando o desejo é substituído pela obrigação, o corpo e a mente começam a dar sinais. O burnout surge como esgotamento emocional e perda de sentido; a ansiedade aparece como uma urgência constante, sem objeto definido; a depressão se manifesta como o esvaziamento do investimento na vida. Não se trata de fragilidade, mas de uma tentativa incessante de sustentar promessas que violentam o próprio ritmo psíquico.
Albert Camus, ao apresentar o mito de Sísifo, oferece uma metáfora precisa para esse movimento. Condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar novamente, Sísifo encarna o absurdo da repetição sem elaboração. Quantas promessas renovamos a cada ano sem questionar sua origem? Quantas metas são pedras empurradas por hábito, culpa ou medo de não corresponder?
Talvez entrar em 2026 exija menos promessas grandiosas e mais responsabilidade subjetiva. Menos listas e mais escuta. Menos comparação e mais elaboração do próprio desejo. A psicanálise não propõe atalhos nem fórmulas prontas, mas convida à reflexão sobre o sentido do que se busca. Afinal, a verdadeira provocação não é o que você pretende conquistar neste novo ano, mas até quando continuará carregando pedras que não escolheu, acreditando que o adoecimento é o preço inevitável de existir?
Feliz ano novo, é o que espero de você minha querida leitora, meu caro leitor.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







