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Home Colunistas

Estudar pra ficar… pobre? – por Luis Felipe Valle

O pote de ouro na internet e a ilusão dos nativos digitais

Luis Felipe Valle Por Luis Felipe Valle
25 de janeiro de 2025
em Colunistas
Tempo de leitura: 5 mins
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Estudar pra ficar… pobre? – por Luis Felipe Valle

Foto: Freepik

A educação, enquanto pilar estruturante de sociedades democráticas, está sob ataque por múltiplas frentes. O discurso neoliberal, em sua obsessão por eficiência e lucratividade, vem reduzindo o processo educacional a um treinamento técnico, moldado para atender às demandas de mercado, em vez de estimular a construção de sujeitos críticos e autônomos. Ao mesmo tempo, as big techs lucram com a desinformação e a superficialização da vida, enquanto uma geração inteira é seduzida pela miragem do enriquecimento fácil anunciada por influenciadores e esquemas fraudulentos na internet.

A situação é agravada pelo discurso negacionista e anti-intelectualista que ganha cada vez mais espaço, frequentemente pautado por agendas ultraconservadoras de extrema-direita. Personalidades, incluindo influencers, pastores, coachs, políticos e empresários, desvalorizam a ciência e a educação, enquanto disseminam preconceitos estruturais como racismo, machismo e elitismo.

A promessa de sucesso pelo empreendedorismo, vendida como uma fórmula mágica para a crise estrutural do capitalismo, atrai crianças e adolescentes que veem na internet uma rota de fuga para escapar das dificuldades de um sistema em colapso.

Na expansão de novas territorialidades do ciberespaço, a ignorância oferece espaços mais vastos do que o pensamento crítico, porque não está limitada às evidências científicas, ao pensamento racional e ao bom senso. Não à toa, a figura do professor cai em descrédito enquanto vigaristas e golpistas são promovidos a heróis da moral e dos bons costumes.

Todavia, é fundamental compreender que as inovações tecnológicas, avanços científicos e soluções para os enormes desafios de nossos tempos nunca vieram e nunca virão de influenciadores, especuladores e sensacionalistas – seja na igreja, no mercado financeiro ou nos palanques virtuais. As respostas fundamentais para sustentar os avanços civilizatórios sempre vieram e sempre virão de cientistas, pesquisadores e estudiosos, em espaços de construção coletiva e produção de conhecimento, como escolas e universidades.

O pensamento crítico, por sua própria natureza, exige esforço, reflexão e uma abertura para questionar a realidade, o que pode ser desconfortável ou impopular em uma sociedade que prioriza a gratificação instantânea e a validação superficial. Influenciadores personificam a figura de vencedores nas plataformas digitais, dissimulando narrativas sedutoras de superação rápida e enriquecimento rápido, validando o discurso imediatista e individualista que tanto encanta o empresariado.

Parte da juventude, marginalizada e com acesso reduzido às formas tradicionais de capital cultural – como estudos formais e títulos acadêmicos – é seduzida a desacreditar na Educação como forma de ascensão socioeconômica, buscando outras formas de obter o sucesso instagramável de consumismo e ostentação. Esses atalhos, não por acaso, costumam levar à precarização do trabalho e à alienação das pessoas, em vez possibilitarem a subversão de um sistema estruturalmente desigual e injusto.

A promessa de sucesso rápido e fácil na internet mascara a necessidade de uma educação emancipatória, que permita desenvolver competências reflexivas e criativas essenciais para a autonomia e liberdade.

Na outra ponta, a juventude herdeira de privilégios reforça o controle e a concentração de riquezas, incluindo likes, visualizações e monetização de conteúdos, enquanto vende a falsa ideia de prosperidade através da meritocracia. No enorme limbo entre os extremos, jovens deixam de acreditar e se dedicar aos estudos, apostando em carreiras artificialmente projetadas por algoritmos a serviço do tecnofeudalismo, tal como os servos que esperavam cair nas graças dos senhores feudais em reconhecimento a lealdade e obediência, geralmente recompensadas com mais exploração e, quando muito, alguma condescendência.

Na contramão, a juventude engajada em usar as redes para denunciar as violências e injustiças do tecnofascismo, que espelham a tirania do neoliberalismo e do conservadorismo, geralmente é silenciada – tanto pelas ferramentas de inteligência artificial de controle de conteúdos quanto pela própria censura que pessoas adestradas promovem, alicerçadas pela defesa cega de valores ditos tradicionais, mas que muitas vezes já não fazem o menor sentido no tempo e nas circunstâncias em que vivemos.

As plataformas digitais, controladas por grandes corporações, não fazem nenhuma questão de esconder essa lógica de funcionamento ao alavancar conteúdos que geram engajamento e lucro, mas que empobrecem gravemente o debate público.

A viralização de discursos de ódio, fake news, erotização e sensacionalismo demonstra como as big techs monetizam o que há de mais tóxico e perverso na sociedade. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e a psicóloga estadunidense Shoshana Zuboff apontam para as novas formas de vigilância e controle disfarçadas de liberdade digital, mostrando como essas plataformas nos aprisionam em bolhas de superficialidade, ao mesmo tempo em que acumulam dados para lucrar ainda mais, agindo tanto no controle de aspectos subjetivos da vida das pessoas quanto nas guerras híbridas travadas entre governos e grandes corporações privadas.

No livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”, o neurocientista francês Michel Desmurget alerta sobre o impacto devastador do consumo excessivo de tecnologias digitais no desenvolvimento cognitivo e emocional das gerações mais jovens. Esse empobrecimento intelectual não é um acidente, mas sim uma consequência direta de um modelo de negócio que lucra com a distração e a alienação. O resultado é uma geração que desvaloriza o aprendizado e romantiza a futilidade, tomando como exemplo influenciadores que promovem um estilo de vida vazio e consumista, em detrimento de um compromisso genuíno com o progresso humano.

Politicamente, essa tendência enfraquece a coesão social ao alimentar discursos populistas e autoritários. Economicamente, cria uma força de trabalho vulnerável, pouco criativa e disfuncional, incapaz de competir em um mercado global que exige inovação e adaptabilidade. Culturalmente, empobrece a experiência humana ao reduzir a diversidade a mercadorias descartáveis. Socialmente, contribui para uma crise de identidade em que valores comunitários são substituídos por uma obsessão por status e visibilidade.

A superficialização da educação, mercantilizada pelo capitalismo neoliberal, é um dos maiores entraves para a construção de sociedades mais justas. Quando a aprendizagem é reduzida a uma mera preparação para o mercado de trabalho, perde-se a oportunidade de transformar a escola em um espaço de convivência, criatividade e troca de saberes. O pensamento de Paulo Freire nos lembra que a educação deve ser emancipatória, um processo que liberte o indivíduo para refletir criticamente sobre sua realidade e agir para transformá-la.

Essa redução também se reflete na forma como as questões éticas e humanistas são relegadas ao segundo plano. Em um mundo que enfrenta crises financeiras, climáticas e políticas, a desvalorização da educação é um tiro no pé. A resolução de problemas globais requer mentes preparadas para questionar, dialogar e buscar soluções criativas. Negar esse potencial é condenar as próximas gerações a uma existência marcada pela precariedade e pela desesperança.

Em contrapartida, uma educação de qualidade, que respeite a diversidade humana e estimule o senso crítico-reflexivo, é fundamental para o desenvolvimento democrático e soberano de uma nação. Desde o Iluminismo, Kant já afirmava que a emancipação humana está atrelada à capacidade de pensar por si mesmo.

Em tempos de fake news e manipulação digital, essa capacidade se torna ainda mais urgente e necessária, e deve ser acompanhada, especialmente em países em desenvolvimento, de programas de valorização de professores, pesquisadores, cientistas e produtores de conhecimentos, tecnologias e habilidades verdadeiramente benéficas às demandas socioeconômicas, ecológicas, políticas e culturais do século XXI.

Será possível reverter o ciclo de desvalorização da educação e resgatar seu papel como catalisadora do desenvolvimento humano? Para isso, seria necessário um compromisso coletivo com políticas públicas que fortaleçam o ensino, regulamentem as big techs e combatam discursos que desinformam e dividem.

É esse o caminho para construir sociedades onde o conhecimento seja valorizado como horizonte e como recompensa tangível – um tesouro que, diferente das promessas vazias da internet, tem o poder de transformar vidas e viabilizar futuros.

 

Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, pós-graduado em Neuropsicologia.

Tags: colunistasdesenvolvimento socialEducaçãoHora CampinasLuis Felipe Vallepensamento críticosociedade
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