A amizade, o amor, o carinho e a afetividade fazem parte das dimensões mais profundas da vida humana. Até mesmo o sofrimento pela ausência revela o quanto precisamos uns dos outros. Existe também um amor que vai além do sexo, que encanta, aproxima e cria vínculos duradouros. A troca viva de palavras e sentimentos, que conecta naturalmente as pessoas, faz parte da nossa existência e nos alimenta, mas gostaria de ressaltar um tema que deveria estar na base de tudo isso: a ética. O que realmente significa agir com ética quando ninguém está olhando?
Esse tema vem de longe, desde A República, de Platão, especialmente nas reflexões que aparecem no livro II, e permanecem presentes em nossos momentos mais cruciais. Sempre que nos perguntamos o que é certo ou errado, justo ou injusto, estamos tocando nesse campo essencial da vida humana.
O escritor e economista Eduardo Giannetti nos convida, em seu livro O anel de Giges: uma fantasia ética, a refletir sobre uma antiga questão levantada por Platão. O mito conta a história de um pastor que encontra um anel capaz de torná-lo invisível. Surge então uma pergunta inquietante: se ninguém pudesse nos ver, continuaríamos a agir com justiça?
Essa pergunta não pertence apenas à filosofia antiga. Ela aparece silenciosamente em muitas decisões do nosso cotidiano. Pense quantas vezes poderíamos transgredir leis ou normas e não fazemos. Não apenas por medo de sermos descobertos e punidos, mas por respeito às regras que tornam possível a convivência e à nossa própria consciência.
O nosso comportamento, além das amarras morais externas, depende muito dos valores que recebemos desde a infância. Os exemplos de pais, familiares, professores e amigos constroem lentamente nossa percepção do que é correto. Muitos utilizam a religião como referência ética, o que pode ser positivo, mas nem sempre suficiente. Em alguns casos, as pessoas encontram formas de ludibriar a própria consciência, criando justificativas para atitudes que, no fundo, sabem não ser corretas.
Enquanto a transparência física do mundo moderno vem aumentando rapidamente, a chamada “nudez moral”, como Giannetti observa, pode estar em risco. Hoje tudo se torna mais visível: informações, dados, imagens e comportamentos circulam com velocidade impressionante. Ainda assim, a integridade interior continua sendo uma escolha individual.
A visibilidade do mundo não substitui a consciência de cada um.
Alguns se encantam em seduzir apenas por seduzir e acabam ficando sem ninguém. Outros, assassinam seus próprios sonhos e visões positivas em nome de uma ganância sem tamanho. A maioria, por ignorância ou presunção, tenta tomar o trono antes de aprender a governar. E quando isso acontece, frequentemente essas pessoas se perdem em promessas vazias e colhem derrotas profundas. Diante dessas fragilidades humanas, surge novamente a pergunta essencial: como preservar nossa ética?
Talvez a resposta esteja em um esforço contínuo de vigilância interior. Devemos evitar artifícios frágeis que alimentam autoenganos e mentiras pessoais. Essas ilusões podem durar algum tempo, mas raramente permanecem ocultas para sempre. Mais cedo ou mais tarde, cobram um preço alto de quem escolhe viver confiando no poder simbólico do anel de Giges.
Defender a ética exige uma postura consciente diante da vida. Significa cultivar uma forma de viver que não dependa do medo da punição, mas do desejo de manter a própria integridade. Se buscamos uma felicidade mais plena, dificilmente poderemos alcançá-la abandonando nossos princípios.
A ética se fortalece nas pequenas decisões do cotidiano: dizer a verdade quando seria mais fácil mentir, cumprir a palavra dada, respeitar o espaço do outro e reconhecer nossos próprios erros.
Essa atitude ética pessoal também pode se ampliar para famílias e comunidades. Existem famílias que conseguem preservar valores éticos por gerações, transmitindo exemplos de responsabilidade, respeito e dignidade. Outras, infelizmente, deixam vazios difíceis de preencher e até dívidas morais e materiais a seus descendentes.
Se desejarmos, poderíamos citar inúmeras outras situações em que a ética se manifesta, mas vamos parar por aqui. Talvez porque, no fundo, a ética não precise de muitas palavras.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar












