O segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos ainda nem começou, mas os reflexos negativos no campo da sustentabilidade já estão se multiplicando. As expectativas são cada vez piores, considerando o peso que seu país tem nas decisões que a comunidade internacional precisa tomar para evitar uma catástrofe climática planetária.
Uma clara sinalização dos retrocessos que devem ocorrer é a retirada de cinco grandes instituições financeiras norte-americanas da Net-Zero Banking Alliance (NZBA), uma coalizão de mais de 100 bancos de 44 países. Criada em 2021, a Aliança visa financiar iniciativas de descarbonização apresentadas por seus clientes.
As cinco organizações financeiras que anunciaram sua retirada da NZBA são as gigantes Bank of America, Citi, Goldman Sachs, Wells Fargo e, ontem, JPMorgan. Outras podem vir a seguir o mesmo caminho. Essas instituições estão recebendo pressões do campo republicano, orientadas para a continuidade de investimentos em combustíveis fósseis como petróleo e gás natural.
De forma geral, essas megaempresas salientam que continuam postulando a necessidade de descarbonização, mas sua saída da NZBA é um sinal evidente de recuos diante de um novo contexto internacional criado pela vitória de Trump nas últimas eleições presidenciais.
Essa “meia volta” em posições relacionadas ao enfrentamento das mudanças climáticas não é uma novidade no caso de um governo Trump.
Em seu primeiro mandato, os Estados Unidos deixaram o Acordo de Paris, o que influenciou o posicionamento de alguns governos mais conservadores. No seu governo, foi mínimo o investimento em energias renováveis e gigante o apoio a combustíveis fósseis.
Na disputa com a democrata Kamala Harris, Trump falou ainda “mais grosso” no caso de seu posicionamento diante das mudanças climáticas. O discurso do negacionismo climático foi endurecido e o Projeto 2025, um roteiro de ações que deveria ser implementado no segundo governo Trump, elaborado por grupos aliados, é enfático em defender pontos como a necessidade de maior investimento em fósseis, “como a maneira mais rápida de acabar com a pobreza devastadora”.
O Projeto 2025 foi lançado ainda em 2023, com um amplo leque de propostas visando um eventual novo governo republicano, o que acabou se concretizando com a vitória de Trump. Mais de 200 pessoas que trabalharam com Trump em seu primeiro mandato estiveram envolvidas na elaboração do Projeto 2025, o que indica uma forte tendência de que suas ideias sejam colocadas de fato em prática a partir dos próximos dias.
Um dos alvos da nova administração trumpista, conforme o roteiro do Projeto 2025, será a USAID, agência ligada ao governo norte-americano, voltada para defender os interesses do país no Exterior, com o apoio a ações em países em desenvolvimento.
No governo democrata de Joe Biden, que está em seus últimos dias, a USAID fez um investimento recorde em ações direcionadas para o enfrentamento das mudanças climáticas nos países mais pobres.
Há informações, por exemplo, de que milhares de moradores de Bangladesh não foram atingidos duramente por um ciclone de alta intensidade no ano passado, em razão dos sistemas de alerta e proteção de desastres financiados com recursos da USAID. Muitas outras ações nessa linha foram apoiadas pela agência, que segundo o Projeto 2025, entretanto, deveria “cessar sua guerra contra os combustíveis fósseis”.
A mais recente sinalização de que a vitória de Trump influenciará negativamente em várias áreas, a da sustentabilidade entre elas, foi o discurso surpreendente do dono da Meta (Facebook, Instagram, Whatsapp), Mark Zuckerberg, sobre mudanças na edição de conteúdo dessas redes sociais.
Entre outras medidas, será abolida a checagem de fatos por organizações terceirizadas, como ocorre hoje. Esse monitoramento será substituído por comentários de membros da própria rede social, como já ocorre no X, ex-Twitter, de Elon Musk.
O discurso de Zuckerberg, feito a poucos dias da posse de Trump, indicou para muitos analistas a possibilidade de proliferação de fake news e mensagens de ódio pelas redes sociais da Meta, em escala impossível de ser calculada e muito menos controlada. Como já ocorre com o X, que tem levado a fortes questionamentos em países europeus e como ocorreu no Brasil, onde a rede social chegou a ser suspensa por decisão do ministro do Supremo Alexandre de Moraes.
Zuckerberg repetiu um mantra que Musk já vem defendendo, o de que as redes sociais devem ser “livres”, fora do controle de governos, que na sua opinião estariam interferindo na liberdade de imprensa.
Na realidade, liberdade para a multiplicação de discursos de ódio e fake news (que atraem muitos cliques e, no final, geram muito dinheiro para os controladores das redes) seria realmente liberdade?
Em termos da sustentabilidade, teme-se uma maior difusão de fake news relacionadas às mudanças climáticas, com desinformação sobre suas causas e efeitos. Isso em um momento de número cada vez maior de eventos climáticos extremos e com dois anos seguidos de “ano mais quente da história”.
O cenário não é animador. Exigirá uma mobilização e atenção cada vez mais incisivas pela cidadania planetária e por todos os setores, públicos e privados, que estão alarmados com a escalada da emergência climática global.
No limite, a informação verdadeira, real, publicada após muita investigação e checagem de fatos, será cada vez mais preciosa, pela liberdade, pelo respeito aos direitos humanos fundamentais e por ações mais efetivas de enfrentamento ao aquecimento global.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







