Vivemos em um tempo em que a pressa se tornou uma forma de vida. As agendas estão sempre cheias, os compromissos se sobrepõem e a sensação constante é a de estar atrasado para algo. A modernidade transformou o tempo em moeda, e quanto mais o indivíduo tenta “ganhar tempo”, mais ele o perde em sua dimensão essencial: a de viver com presença e profundidade.
A psicanálise observa esse fenômeno como um dos grandes sintomas da contemporaneidade: a incapacidade de parar, de escutar a si mesmo e de sustentar o vazio necessário para que o pensamento e o afeto se formem. Posso contar com sua companhia para juntos refletirmos sobre essa pauta atual e necessária em 2025? Venha comigo, meu caro leitor e minha querida leitora, por favor.
Na correria do cotidiano, as relações tornam-se superficiais. Conversas se resumem a trocas rápidas, mensagens instantâneas substituem diálogos reais, e o contato humano perde espaço para a urgência produtiva. Essa dinâmica faz com que o sujeito se distancie de si e do outro, criando um tipo de solidão moderna: a solidão da pressa.
Não se trata da falta de pessoas ao redor, mas da ausência de tempo e de disponibilidade emocional para estar com elas.
A psicanálise entende que essa aceleração tem origem em mecanismos inconscientes que buscam evitar o encontro com a própria angústia. Manter-se ocupado é, muitas vezes, uma defesa contra o silêncio interno, contra a sensação de vazio e contra o confronto com aquilo que realmente importa.
O tempo preenchido demais funciona como uma barreira psíquica: protege, mas também aprisiona. O sujeito passa a existir em função do que faz, não do que sente. Trabalha, cumpre, responde, corre, mas não vive. Essa lógica do “fazer sem parar” também impacta a construção de vínculos afetivos.
Relações exigem tempo; tempo para ouvir, para compreender, para errar e reconstruir. Quando o tempo é escasso, os laços se tornam frágeis e descartáveis. Amizades se esvaziam, casais se desencontram, famílias se distanciam. O amor, que é feito de presença, acaba sufocado pela ausência de pausas. E o sujeito, mesmo cercado de compromissos e conquistas, sente o peso de uma solidão silenciosa.
A psicanálise convida à escuta de si, à desaceleração necessária para perceber o que realmente está sendo vivido. O processo analítico devolve ao sujeito a possibilidade de habitar o próprio tempo, de entender que o ritmo imposto pela sociedade não precisa ser o mesmo ritmo da alma. Ao falar, o indivíduo se ouve e, nesse gesto simples e profundo, começa a se reencontrar. O tratamento psicanalítico não propõe apenas diminuir o ritmo, mas compreender por que se corre tanto. O que se tenta alcançar com essa pressa? O que se teme perder se o tempo parar? Essas perguntas, quando acolhidas, abrem caminhos para uma nova relação com o viver. O tempo, então, deixa de ser inimigo e volta a ser espaço; espaço de criação, de afeto e de presença real.
Recuperar o tempo é recuperar a si mesmo. É permitir-se sentir, estar e compartilhar. É entender que a profundidade das relações não depende da quantidade de horas, mas da qualidade da presença. E essa presença só nasce quando o sujeito se permite habitar o agora, sem se perder na pressa de ser produtivo.
No fundo, a falta de tempo é, muitas vezes, a falta de si. E a psicanálise, com sua escuta atenta e seu convite à reflexão, oferece um caminho de retorno; um retorno ao próprio ritmo, ao próprio desejo e à possibilidade de viver com mais verdade e vínculo.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







