A solidão, quando nasce no seio da família, carrega uma densidade silenciosa e persistente. Ela não é a ausência física das pessoas, mas a ausência simbólica do olhar, da escuta e do reconhecimento. A psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui na relação com o outro; um outro que o escuta, o nomeia e o inscreve no campo do desejo. Quando esse outro primário, geralmente os pais, falha em oferecer presença afetiva, o vazio não é apenas emocional: torna-se estrutural.
O indivíduo cresce sentindo-se invisível, não porque não há ninguém, mas porque não há um olhar que verdadeiramente o veja. Gostaria de convidar você minha caríssima leitora, meu caro leitor a refletir junto a mim sobre essa pauta, atual, real, que tem ganhado cada vez mais espaço nas famílias, posso contar com sua companhia? Ótimo, pois então me acompanhe, por favor.
Nas famílias contemporâneas, marcadas pelo ritmo acelerado e pela presença das telas, a ausência assume novas formas. Pais e filhos compartilham o mesmo espaço, mas raramente o mesmo tempo.
O diálogo cede lugar à notificação; o toque, ao emoji; a escuta, ao ruído cotidiano. Nessa dinâmica, o sujeito aprende cedo que não pode contar com o outro, e começa a se bastar. A solidão, então, se torna uma defesa: melhor não precisar do amor do outro do que se frustrar com sua ausência.
Freud, ao falar sobre o desamparo lembrava que o humano nasce dependente e vulnerável. Essa condição de origem pede amparo, cuidado e presença simbólica. Quando a família falha em oferecer isso, a criança internaliza uma experiência de não pertencimento. Mais tarde, esse vazio se manifesta em diferentes sintomas: dificuldade de confiar, medo da intimidade, autossuficiência aparente, ansiedade ou depressão. Lacan aprofunda essa noção ao dizer que o sujeito se forma a partir do desejo do Outro. Se esse Outro não deseja, ou deseja de forma confusa e intermitente, o sujeito se fragmenta entre o querer ser visto e o temer o olhar.
A “família ausente” não é apenas aquela fisicamente distante, mas também aquela emocionalmente indisponível. Pode haver pais presentes e afetivamente vazios, parceiros próximos e afetivamente ausentes, lares cheios e corações isolados.
Essa ausência emocional cria uma espécie de eco interno, o sujeito fala, mas o som não retorna. Daí nasce uma solidão que não se resolve com companhia, porque é anterior a qualquer encontro.
A solidão que emerge da ausência familiar é, portanto, uma solidão estrutural: ela fala da falta do Outro que deveria sustentar o sujeito em sua constituição simbólica. O adulto que vive esse tipo de solidão tende a buscar incessantemente alguém que o escute, mas também teme ser novamente abandonado. Vive o dilema entre desejar laço e temer o vínculo. Na clínica, esse é o espaço em que a palavra pode restituir algo do olhar perdido. A escuta analítica, ao oferecer presença sem julgamento, repara simbolicamente o que a família não pôde dar: um lugar para existir como sujeito desejante.
No fundo, “Família Ausente, Solidão Presente” é mais do que um tema; é uma ferida social e psíquica do tempo.
Em uma era em que o contato é constante, mas o vínculo é rarefeito, a psicanálise nos lembra da urgência de recuperar a presença simbólica. Porque o contrário da solidão não é estar cercado de pessoas, mas ser verdadeiramente reconhecido por alguém. A ausência familiar, quando não elaborada, perpetua a solidão; mas quando reconhecida e trabalhada, pode abrir caminho para uma nova forma de laço, mais consciente, mais livre e finalmente possível.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







