Rara leitora, raro leitor, falo de guerras, de que mais posso discorrer? São elas que permeiam nossa distinta existência. Elas acompanham nossa história, elas nos fazem história. E já diz o trecho de uma música que ninguém faz história sem ter o que comer. Como fazer história se te falta comida? No caso de Gaza, é exatamente pela falta de alimento que aquelas crianças e adultos fazem História. Histórias que se vão, futuros roubados, presente desolador. É isso o que oferecem àquela pequena faixa de terra, atualmente já reduzida a apenas pó e ruínas. Dois milhões de pessoas que ocupam agora um terreno de 50 quilômetros quadrados.
Imagine uma cidade brasileira de cerca de 50 mil habitantes. Nela estariam os que ainda sobrevivem em Gaza. Para os palestinos, a guerra tornou-se a própria casa.
Gaza é um prenúncio de como poderá ser nosso futuro. Com a destruição que operamos diariamente contra o nosso planeta, os recursos se minguando, as potências se armando, o ódio se multiplicando, só podemos esperar por mais e mais guerras. Gaza é uma mancha coletiva na história da humanidade, um marco…
Quem sofreu as maiores atrocidades do século XX é quem comanda a maior do início do século XXI. Não é guerra, é massacre. Não é assassinato, é genocídio – e não é necessário nenhum tribunal internacional para confirmar! Basta ligar a televisão.
É desumano ou é extraordinariamente humano? Discórdias materializadas em violência e guerra fazem parte da nossa natureza.
Sim, Hamas é um grupo terrorista, mas Netanyahu já superou a sua crueldade. O novo Hitler já está aí, bem próximo de nós. E hoje temos câmeras, que nos gravam tudo. Mas nem isso é capaz de convencer líderes de outros países a agir: a inação também é assassina! São todos cúmplices, multiplicando o desastre.
O absurdo é tão grande que, não bastasse toda a destruição, para pisar ainda mais na ferida, lançam a ideia de transformar o território em uma área de resorts. Empreendimentos que se erguerão sobre uma terra onde caíram cadáveres inocentes, em que crianças e adultos morreram de fome, e que foi banhada por sangue, choro e lamentações. Maldição!
Na Europa, fala-se muito de um acordo que possa garantir uma “paz justa e duradoura”. Não há paz duradoura, muito menos justa. Onde está a justiça para os mortos, feridos, desiludidos, a todos aqueles que perderam a esperança do futuro, aos quais foram roubados dias e noites. Onde estão as histórias que seriam construídas, as brincadeiras que seriam feitas, as vidas que seriam vividas?
A história é contada por quem venceu, mas neste caso, não há como ocultar o heroísmo daqueles que morreram. Eles sim, que fizeram história, por não ter o que comer e como se proteger.
Costumo dizer que a espécie humana já viveu seu apogeu. Agora caminhamos para o abismo.
Quero carros alegóricos carregando cadeirantes, pessoas especiais, todos aqueles que mais precisam, exultando de felicidade; e não desfiles militares mostrando o poder de destruição. Precisamos do poder do amor, da empatia, da compaixão.
Em tempo: Nos Estados Unidos, o atual presidente trocou o nome do “Departamento de Defesa” para “Departamento de Guerra”. Nada mais correto. Aquele país esteve ou está envolvido em todo tipo de atrocidades, apoio a ditaduras, espionagem, conflitos e guerras. Tornaram apenas visível o que estava oculto.
Gustavo Gumiero é Doutor em Sociologia (Unicamp) e Especialista em Antigo Testamento – gustavogumiero.com.br – @gustavogumiero







