A transição entre Millennials (Geração Y) e a Geração Z é marcada por um abismo tecnológico e existencial. Enquanto os primeiros (nascidos entre 1981 e 1996) foram os últimos a experimentar a infância analógica e a adolescência digital, os Z já nasceram imersos, entre 1997 e 2012, em smartphones e algoritmos. Essa diferença radical de experiência criou uma desconexão: adultos, ainda presos à nostalgia dos anos 90, tentam educar jovens que não entendem o mundo sem Wi-Fi. O resultado? Uma geração de mães e pais exaustos criando filhas e filhos desencantados.
Esses familiares, por sua vez, foram educados pela Geração X (nascidos entre 1960 e 1980), criada sob a rigidez da ditadura militar no Brasil. Condicionados pela repressão, reproduziram em casa o autoritarismo que sofreram. Quando chegaram aos filhos, os Millennials, já adultos, prometeram ser diferentes: afetivos, compreensivos, menos rígidos. Mas, na tentativa de poupar os filhos da dor, criam uma armadilha: superprotegem-nos, privando-os das frustrações necessárias para amadurecer.
A superproteção não vem do acaso. Ela é fruto do esgotamento físico e mental de uma geração Y que ralou em empregos precarizados, viu sonhos se esfarelarem nas crises cíclicas do capitalismo e hoje mal consegue pagar terapia. Cansados, mães e pais delegam a educação das crianças às telas, criando uma geração Z que, embora hiperconectada, sofre de solidão existencial. Se os Millennials estão sendo explorados pelo capitalismo informacional, os nativos digitais estão sendo moldados por ele desde o berço.
Consequências graves vêm da exposição precoce à hiperconectividade . Crianças e adolescentes da geração Z são bombardeados por estímulos vazios, enquanto algoritmos viralizam a ilusão de que sucesso, beleza e felicidade são produtos a serem consumidos. Influenciadores digitais e gurus de coaching pregam meritocracia em um mundo onde as regras do jogo são cada vez mais desiguais – jovens se cobram por não atingirem padrões inalcançáveis, enquanto a ansiedade e a depressão ocupam os espaços de indignação, criatividade e potência de subversão.

O distanciamento cada vez maior entre gerações agrava o problema. Se antes avós, pais e filhos compartilhavam angústias e saberes, hoje vivem em universos paralelos. Os Millennials, sobrecarregados, não têm energia para dialogar; os Z, mergulhados no virtual, não veem nos adultos exemplos inspiradores e tampouco têm paciência para ouvir e aprender com histórias de vida de avôs e avós. Quando as relações se reduzem a curtidas e stories, perde-se a capacidade de construir laços sinceros de confiança e admiração.
É preciso resgatar a vida real, fora das telas e inteligências artificiais. Isso significa enfrentar o sofrimento, lidar com frustrações, compreender erros como pontes que conectam diferentes gerações e permitem superar obstáculos em vez de fugir deles com distrações digitais. Significa valorizar relações presenciais, onde o afeto se constrói na troca, na diversidade, no conflito, na reconciliação e no consenso dialógico.
Pais, mães, professores e amigos precisam voltar a ser referências, mostrando que a vida não se resume a imagens manipuladas com filtros e bots simulando seguidores. Tarefa difícil num mundo que nos empurra para o individualismo e o imediatismo das interações superficiais.
Importante, para isso, entender que o neoliberalismo não explora apenas corpos; domina mentes e corações. A psicopolítica nos convence de que somos livres enquanto nos controla através do cansaço, da ansiedade e da autoexploração. A geração Z, treinada para buscar recompensas imediatas, é especialmente vulnerável a essa lógica. Seus desejos são pré-formatados e sua rebeldia é comercializável, instagramável. Será que ainda há como escapar?

A ascensão da inteligência artificial e dos dispositivos de modulação comportamental torna a resistência ainda mais difícil. As novas gerações são condicionadas a aceitar a exploração psicossocial como algo natural. As tecnologias do neoliberalismo não precisam mais de grades: elas nos convencem a construir nossas próprias prisões digitais. Como despertar jovens que nem percebem que estão sendo controlados?
Recriar encantamento nas interações olho-no-olho pode indicar caminhos. Crianças e adolescentes carecem de exemplos reais que os inspirem a construir um mundo mais justo e humano. Isso requer que adultos reavivam sua própria capacidade de sonhar – algo raro para uma geração cada vez mais cansada. Mas, sem esperança, não há futuro. Precisamos mostrar que a vida vale a pena além dos likes, que a política importa, que é preciso proteger o meio ambiente, que a educação e a ciência são bases civilizatórias e que a mudança é sempre possível.
Será que pessoas de verdade ainda podem inspirar a geração Z? Só se deixarem de ser espectadoras e voltarem a ser protagonistas do seu tempo, comprometidas com o mundo que ajudam a construir. E quanto à geração Alfa e à recém-chegada geração Beta? Elas herdarão um planeta em colapso climático, uma sociedade economicamente desigual, emocionalmente fragmentada e afetivamente anestesiada por dispositivos digitais. Se não repensarmos nossas formas de educar, trabalhar, amar e existir, o marasmo da geração Z será apenas o prelúdio de um futuro ainda mais desencantado.
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra”, dizia Paulo Freire. Ou seja, é preciso criar condições para que os sujeitos, inclusive os mais jovens, possam compreender criticamente a realidade e se reconheçam como autores de suas histórias. A superproteção, o fatalismo e a apatia são obstáculos à construção dessa consciência crítica. O mundo virtual, quando não dialoga com a realidade concreta, funciona como instrumento de alienação e anestesia. A subversão desse projeto de autoritarismo sutil e controle dissimulado vem de uma pedagogia de afeto transformador e de esperança, que só é possível quando há compromisso ético com o outro e com o futuro coletivo.
Uma educação capaz de formar sujeitos para a transformação social, como ensinava Florestan Fernandes, e não para a adaptação submissa ao sistema. Sem romper com a perversidade do individualismo, do imediatismo, da ostentação da aparência e do consumo, não há emancipação possível. Estamos dispostos a encarar esse desafio?
Não se trata somente do estado de espírito de uma geração, mas da possibilidade de que o futuro ainda seja um projeto de possibilidades criativas, solidárias, generosas, revolucionárias — e não apenas uma herança de ruínas.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia.







