A Ciência Aberta não é uma linha de chegada, mas sim um meio para um determinado fim. Um objetivo subjacente por trás do movimento em direção à Ciência Aberta é conduzir e publicar pesquisas sempre mais confiáveis. Aumentar a transparência, a reutilização e a conectividade de resultados científicos é um desejo comum compartilhado entre editores e pesquisadores, mas o progresso pode parecer lento e a implementação longe de ser generalizada.
Semelhante de como a compreensão científica é frequentemente alcançada por meio de progresso incremental, mudanças em todo o sistema em direção à Ciência Aberta só serão alcançadas por meio de colaboração séria entre financiadores, instituições, editores e pesquisadores. E, infelizmente, parece que isto não está ocorrendo de maneira sistêmica. Olhando para soluções pragmáticas e os ideais subjacentes, imaginamos mudanças na publicação científica no contexto de quatro funções fundamentais que os editores devem fornecer: disseminação, verificação, reconhecimento e construção de comunidade.
O termo “artigo científico (ou de pesquisa)” é amplamente usado como um termo genérico para descobertas publicadas.
Um artigo de pesquisa é normalmente consumido como um arquivo em PDF estático e que é enviado aos editores após os resultados terem sido acumulados e as conclusões tiradas. Os leitores devem esperar até que o estudo esteja completo e o artigo associado publicado (ainda que ahead of print – antes da impressão final) antes de poderem acessar a metodologia, que pode ter sido finalizada meses ou anos antes.
Dividir o artigo em partes mais digeríveis e estruturadas — ou módulos — pode fornecer aos pesquisadores mais oportunidades de reutilizar e melhorar a pesquisa. Relatos incompletos de métodos em artigos tradicionais podem impedir que a pesquisa seja reutilizada ou reproduzida. No futuro, talvez os estudos possam ser apresentados como uma coleção de objetos de pesquisa interligados e metadados associados.
Dados, códigos, protocolos e outros elementos, como reagentes, podem ser todos identificados e verificados de forma independente, permitindo que os leitores encontrem e acessem mais facilmente os elementos mais relevantes para eles. O teste definitivo para o relato e validade de um estudo é se ele pode ser totalmente reproduzido por diferentes pesquisadores. Os materiais usados, as etapas dos métodos e as condições experimentais devem ser descritos precisamente para que um estudo seja reproduzível. A reprodução de pesquisas anteriores pode ser um ponto de partida para pesquisadores contemporâneos que leva a novas descobertas.
Em suma, o relato adequado ajuda a avançar o campo e acelerar novas descobertas. A transparência permite a verificação. O pré-registro permite a interrogação do que foi planejado e do que foi realizado, e a publicação de revisões por pares e pré-impressões permite que os leitores visualizem as mudanças que ocorrem durante a revisão por pares.
Links diretos para dados depositados e código executável dão uma oportunidade de trabalhar com o mesmo material que os autores. Ter esses elementos — protocolos, dados, código, histórico de revisão — disponíveis e vinculados a artigos de pesquisa reduz dependências dos autores de um estudo, promovendo eficiência. Um estudo que pode ser replicado com informações disponíveis e fáceis de encontrar permite que a pesquisa seja utilizável no futuro. O sucesso percebido de um pesquisador tradicionalmente depende do crédito que ele recebe por meio de publicações.
O avanço na carreira e outras recompensas podem ser determinados pela forma como os resultados da pesquisa são valorizados e reconhecidos, e, portanto, reconhecer contribuições de pesquisa diversas e mais granulares além das publicações é essencial para que os pesquisadores sejam recompensados por seu trabalho de forma apropriada.
Protocolos revisados por pares dão aos autores uma publicação formal que permite que seus métodos sejam citados, compartilhados e usados como um sinal de realização.
Oportunidades semelhantes existem para compartilhar, descrever e citar conjuntos de dados de pesquisa e software, que precisam ser mais amplamente adotados pela comunidade científica mais ampla, aumentando as chances de reconhecimento adicional. Os editores são apenas parte da solução. Instituições e financiadores podem trabalhar com editores para reconhecer e recompensar pesquisadores por trabalharem de forma transparente e reprodutível.
Os pesquisadores podem se beneficiar pessoalmente ao apresentar suas pesquisas em formatos abertos e reutilizáveis, pois isso pode impulsionar a colaboração e a reutilização — e podem considerar os princípios da Ciência Aberta ao avaliar estudos de seus pares. A comunidade científica fez grandes progressos em tornar a pesquisa sobre o Coronavírus o mais aberta possível. Com autores de todas as disciplinas depositando seus artigos como pré-impressões e editores tornando a pesquisa relevante totalmente acessível, os benefícios da Ciência Aberta ficaram ainda mais claros.
Ao conectar pesquisadores por meio da revisão por pares e fornecer estruturas para tornar a pesquisa relevante compartilhável e acessível sem barreiras, os periódicos ajudam os pesquisadores a construir e manter suas comunidades.
O papel que os periódicos têm em dar suporte a essas comunidades continuará a evoluir à medida que novas formas inovadoras para os pesquisadores colaborarem e se conectarem se desenvolvem. Se essas mudanças radicais ajudaram a melhorar a descoberta científica em um período de necessidade global, elas poderiam ser adotadas em outras áreas de pesquisa.
O comprometimento abrangente com a Ciência Aberta requer a comunidade científica completa. Para que a pesquisa seja disseminada, verificada e creditada de forma mais eficiente, mudanças em todo o sistema em direção ao Acesso Aberto devem ser adotadas por toda a comunidade científica.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994), da cidade de Campinas entre 2013 e 2020 e Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022. Atual presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, Diretor Científico da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH) e Pesquisador Responsável pelo CEPID-CancerThera-FAPESP.







