A defumação é uma técnica milenar que surgiu da necessidade de conservar alimentos muito antes da invenção dos frigoríficos ou embalagens a vácuo. Ao expor a carne à fumaça proveniente da queima controlada de madeiras específicas, reduzia-se a umidade e inibia-se o crescimento de microrganismos, prolongando a durabilidade do produto. Com o tempo, essa prática ultrapassou a função de simples conservação para se tornar uma arte culinária.
Foi exatamente esse saber tradicional que moldou a vida de José Arcanjo. Aos nove anos, no fundo de um casarão antigo na cidade de São Paulo, ele aprendeu com a avó a arte de salgar e defumar carne de porco.
“Minha avó salgava e defumava as partes do porco para melhor conservação, mas o método artesanal garantia uma riqueza de sabores incrível”, relembra o chef.
O que começou como hábito familiar, preparando cortes suínos para os almoços de casa, cresceu com o tempo. Primeiro, Zé cozinhava para a família, depois para a esposa e filhos, e, por fim, para amigos que não cansavam de elogiar. O reconhecimento espontâneo abriu caminho para a criação de um restaurante especializado, que rapidamente se tornou referência pela autenticidade e sabor.
Em Campinas, o Le Porquet chegou há pouco mais de um mês. O momento não poderia ser mais favorável. Segundo dados do IBGE, o consumo de carne suína no Brasil atingiu 19,52 kg per capita em 2024, crescimento de quase 35 % em relação a 2015. Projeções indicam que em breve esse número poderá superar 21 kg por pessoa.
Nos últimos 27 anos, a proteína registrou o maior crescimento proporcional de consumo entre todas as carnes — um aumento de 235 %, impulsionado por preço competitivo, campanhas de valorização e, claro, pelo sabor cada vez mais apreciado.
Nesse cenário, a defumação destaca-se como uma das formas mais desejadas de preparo. Hoje, mais do que uma técnica de conservação, ela é sinônimo de sofisticação gastronômica. A escolha das madeiras — do adocicado das frutíferas à intensidade do carvalho — transforma cada corte num prato memorável.
No restaurante de José Arcanjo, essa tradição ganha vida em receitas que unem história, aroma e textura, conquistando tanto consumidores que buscam autenticidade quanto os que desejam novas experiências de sabor.
Para o chef, a carne suína defumada não é apenas um prato: é uma viagem no tempo, capaz de reunir pessoas e memórias à mesa. Uma tendência que deixou de ser modismo e se firmou como parte essencial da gastronomia brasileira.












