Onde tem fumaça tem fogo. E tem crime e alerta extremo.
O céu escureceu bem mais cedo nos últimos dias em várias cidades paulistas, inclusive na capital. A conjunção de tempo muito seco, agravado pelas mudanças climáticas, com possíveis ações criminosas levou à propagação de focos de incêndio em diversos municípios.
A escalada de queimadas em território paulista, repetindo o que já vinha ocorrendo em outros estados e regiões do país, provocou movimentos mais enfáticos nos governos de São Paulo e federal. Criação de gabinetes de crise, mobilização de maiores recursos humanos e materiais, pronunciamentos dos principais mandatários e auxiliares.
De forma geral, a sensação de impotência diante do que estamos vendo claramente diante de nossos olhos.
Os eventos climáticos extremos, que potencializam eventuais atos delituosos, estão provocando fenômenos que a qualquer momento podem fugir do controle e de instrumentos de gestão. E isso no estado mais rico do país, o que leva à inevitável indagação: o que acontecerá com a Amazônia e demais biomas brasileiros com o muito provável agravamento das mudanças do clima nos próximos, bem próximos, anos?
Os números do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) não deixam dúvidas sobre a gravidade do que estamos assistindo, atônitos, como possível antessala do amanhã. O mesmo INPE que no governo federal anterior foi atacado, enfraquecido, esvaziado, mas que continua cumprindo com dignidade o seu papel, o de mostrar a realidade e alertar quando necessário, com base nas ferramentas mais avançadas e nos conceitos consolidados da ciência.
Segundo o INPE, o Brasil soma 107.133 focos de queimadas de 01 de janeiro a 25 de agosto de 2024. É o maior número de focos desde 2018, representando um incremento de 75% em relação ao mesmo período de 2023. O número de focos de queimadas no Brasil é quase a metade do registrado em toda a América do Sul neste ano, que foi de 235.260.
É claro que o número gigantesco de queimadas no Brasil em relação aos demais países se deve entre outros fatores à dimensão continental do país. Entretanto, a contabilidade derivada dos satélites utilizados pelo INPE de qualquer forma revela ameaças inquietantes para grande parte das regiões e dos biomas brasileiros.
Chama a atenção em especial, no monitoramento executado pelo Instituto, a situação nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste, respectivamente onde predominam os biomas Amazônia, Cerrado/Pantanal e Mata Atlântica, respectivamente. Cada bioma com sua riqueza e complexidade em biodiversidade e elementos socioeconômicos e políticos, mas todos muito ameaçados pelo recrudescimento das mudanças climáticas, associado a práticas que podem ser muito nocivas a seus respectivos ecossistemas.
De acordo com o Programa Queimadas, o número de focos detectados neste ano no Centro-Oeste (32.997), Norte (45.675) e Sudeste (11.133) é o maior desde 2018, considerando o período de 01 de janeiro a 25 de agosto. Destaque para o crescimento apavorante do número de incêndios no Sudeste e Centro-Oeste nesse período em relação ao ano passado, de incríveis 159% e 151%, respectivamente. No Norte, também considerando o mesmo período, houve um crescimento não menos alarmante de 77% no número de incêndios entre 2023 e 2024.
Se forem considerados os números dos biomas, especificamente, o sinal de alerta fica ainda mais vermelho, e de novo levando em conta o período de 01 de janeiro a 25 de agosto. De longe o cenário do Pantanal se apresenta como o mais grave, com assustadores 2.094% de aumento do número de queimadas entre 2023 e 2024.
Mas o panorama não é menos dramático na Amazônia e no bioma de domínio da Mata Atlântica. Houve um crescimento de 77% dos focos na Amazônia entre 2023 e 2024, número que apenas perde para os 130% verificados entre 2018 e 2019, correspondentes aos da eleição presidencial e primeiro ano do governo federal anterior.
Na Mata Atlântica, um claro e inequívoco sinal de alarme. Entre 2023 e 2024, no mesmo período citado, houve um aumento de 86% no número de focos de queimadas no bioma, de 5.792 para 10.789, respectivamente.
Quando se fala Mata Atlântica, obviamente, se considera a região que originalmente foi coberta por ela e não o que sobrou da vegetação nativa. Mas nesse sentido fica a advertência. A proliferação de focos de queimadas nessa região originalmente típica de Mata Atlântica representa uma evidente ameaça às manchas de vegetação nativa ainda existentes, como aquelas localizadas no estado de São Paulo, incluindo as matas situadas na Região Metropolitana de Campinas.
É preciso um cuidado máximo, permanente, com essas matas, que guardam verdadeiros tesouros biológicos e são fonte de vida para toda a região.
Fazendo uma analogia um pouco pobre. A atual campanha eleitoral para as Prefeituras começa a pegar fogo. O que estamos vendo, pelo menos no âmbito do estado de São Paulo, é a repetição em escala municipal da polarização ideológica que parece ter vindo para ficar. Tomara que essa polarização não prejudique o que é cada vez mais óbvio, clarividente: é preciso somar muitos esforços, de quem pensa a ou b, para que haja um efetivo enfrentamento das consequências das mudanças climáticas, que vão se agravar e muito. Do contrário, todos, a, b ou c, vão pagar caro.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












