Impressionante são os números de pessoas mortas através do mundo por acidentes no trânsito. São pessoas, em geral, sadias, jovens e em sua plenitude de vida. Há dez anos este número atingiu a marca de um milhão de pessoas mortas no trânsito por ano e que se mantém, infelizmente, até os nossos dias. Na verdade, enquanto escrevo este artigo, o número de mortes está crescendo e, quando você for ler este texto, certamente, será ainda mais.
Claro que ninguém está registrando cada morte individualmente; os números são baseados em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que estima que mais de 1,2 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito globalmente a cada ano. O relatório continua estimando que mais de 20 a 50 milhões de pessoas sofrem ferimentos não fatais a cada ano devido a colisões nas estradas, deixando um resultado de milhões e milhões de pessoas desabilitadas total ou parcialmente.
É trágico ver o que ocorre no Brasil. Em São Paulo, por exemplo mais de um motoqueiro morre todos os dias, resultado, em grande parte, da imprudência. Apesar de ter pouco mais da metade dos veículos registrados no mundo, apenas 10% dos acidentes de trânsito ocorrem em países de alta renda. Possivelmente, a qualidade e idade dos veículos, das estradas, vias públicas e o cuidado dos condutores e pedestres, devem ser os fatores mais importantes para que isto ocorra.
Portanto e mais uma vez, esta tragédia humana ocorre muito mais em países pobres onde os fatores ligados a qualidade das vias públicas, os veículos mais velhos e com menores dispositivos de segurança, a falta do uso do cinto de segurança, o uso abusivo de álcool e, é claro, a imprudência desmedida dos motoristas (mas também de pedestres), são fatores que fazem deste problema um problema quase epidêmico.
Talvez não seja surpresa que pedestres, ciclistas e aqueles que viajam em veículos motorizados de duas rodas sejam responsáveis por uma alta proporção de mortes também fora do Brasil. Na Índia, que tem um dos piores registros de segurança no trânsito, 44% das aproximadamente 100.000 mortes no trânsito por ano foram contabilizadas por esse grupo vulnerável. Preocupantemente, a data em que a milionésima morte é alcançada deve chegar mais cedo nos próximos anos porque a mortalidade global no trânsito está aumentando.
Até 2030, espera-se que os acidentes de trânsito subam no ranking, tornando-se a 5ª causa principal global de mortalidade. Isto é um escândalo absoluto. Vocês ficaram surpresos com as estatísticas? Não é de se espantar que os seguros tenham disparado os seus valores ao longo dos anos.
Com valores elevados, um contingente cada vez maior deixa de fazer o seguro e isto aumenta a pressão sobre os sistemas públicos de saúde como sobre o nosso SUS. Todos nós devemos defender de maneira radical as políticas de não beber, e, se beber, não dirigir. Parece-me absolutamente óbvio que um grande número de acidentes é causado por excesso, ou mesmo pequenas quantidades, de álcool. Esta ação de beber e dirigir é, certamente, criminosa pois acaba por vitimar pessoas inocentes. Estes crimes, infelizmente, contam com um grau de impunidade enorme.
Reduzir esta tragédia não é simples e depende de inúmeras ações dos poderes públicos e da população. A educação para o trânsito, começando nas escolas, colocando a condução de veículos como um ato de cidadania e com responsabilidade social, deve ser instituída de maneira contínua e universal.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994), da cidade de Campinas entre 2013 e 2020 e Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022. Atual presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, Diretor Científico da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH) e Pesquisador Responsável pelo CEPID-CancerThera-FAPESP.







