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Home Colunistas

Mulher investiga crime em cenário dominado por homens – por João Nunes

João Nunes Por João Nunes
17 de junho de 2022
em Colunistas
Tempo de leitura: 3 mins
A A
Mulher investiga crime em cenário dominado por homens – por João Nunes

Glória Pires vive a comissária Lúcia no suspense A Suspeita, que estreia essa semana nos cinemas. Fotos: Divulgação

A associação explícita da doença da comissária Lúcia (Glória Pires) como metáfora da enfermidade de que sofre a polícia (extensiva à sociedade como todo) em “A Suspeita” (Brasil, suspense/drama, 2021, 120 min.), de Pedro Peregrino, é deslize importante, mas não o suficiente para que não se exalte o bom roteiro de Thiago Dottori.

Em filme no qual o roteiro é um dos destaques, faltou sutileza, como se o espectador não tivesse feito a associação e fosse necessária anunciá-la com todas as letras.

Curioso, porque é delicada a maneira como o roteiro faz a narrativa andar. Exemplo: mensagem de celular indica a que palestra Lúcia vai assistir como parte da investigação que ela empreende. Assim como as cenas nas quais ela “sai do ar”, em consequência da doença, são construídas no tom da sutileza.

A propósito, há momentos muito bonitos (levando em conta o absurdo de se considerar belos os efeitos de doença degenerativa; no caso, Alzheimer) que o roteiro indica e o diretor exibe como imagem.

 

 

Em uma delas, no início, a direção aproveita o cenário geométrico e encerra Lúcia em uma das formas a fim de ilustrar que ela sofre fuga da realidade – dispersão na narrativa desenhada com cuidado, afeto e poética.

O silêncio desses momentos é outro acerto da direção. E, em nenhuma dessas sequências há explicação. O espectador entende o que está acontecendo, assim como a doença não é anunciada; o roteiro dá sinais dela, como avisar Lúcia de que precisa tomar determinado remédio.

Estes elementos são importantes para entender como “A Suspeita” se estrutura. Trata-se suspense mesclado ao drama e que se passa no intrincado e complexo universo policial dominado por homens e cuja peça-chave é uma mulher.

Todo filme de gênero tem gramática própria e Pedro Peregrino segue o padrão; portanto, sem novidades – e nem precisa haver. O elogiável no roteiro é possibilidade de dispensar o uso de eventuais cenas de perseguições, sirenes e outras características comuns que podem ser agregadas ao gênero e, na direção (afinal, é quem assina o produto final), de referendar o trabalho de Joana Collier de que é possível fazer suspense sem edição acelerada.

Deve ter pesado bastante o protagonismo feminino na atuação e na edição, pois o filme cumpre trajeto baseado na particularidade feminina de dar atenção ao detalhe. Dispensa-se, pois, a pirotecnia, a exacerbação, o excesso.

A atriz protagonista contracena com Gustavo Machado, que também interpreta um policial

Outra observação positiva sobre o roteiro é o modo como até quase o final da história, o espectador saiba tão pouco da protagonista. Com isso, toma-se contato com Lúcia aos poucos e só lá pelas tantas será possível compreender melhor as ações dela, como: porque digita falando o texto ou porque não há nenhum familiar ao lado dela.

Não por acaso a cena do aniversário infantil torna-se tão significativa. E nostálgica. Nostalgia que também comporá as sequências finais – um bem desenhado desfecho, diga-se.

A direção acentua a tensão valorizando os silêncios, assim como se utiliza de locações austeras ou as que revelam um Rio de Janeiro longe do imaginário de “cidade de encantos mil”. Junte-se a boa trilha de Edson Secco, a cuidadosa direção de arte de Thiago Marques Teixeira e a interpretação interiorizada (e, como sempre, permeada de brilhos) de Glória Pires.

Mesmo nos momentos decisivos, como um assassinato e, depois, no desfecho, existe o cuidado da direção em manter a narrativa sob controle emocional e longe de catarses.

Talvez, o espectador menos disponível se decepcione, mas o suspense misturado ao drama de uma mulher com doença degenerativa e tentando investigar crime em corporação policial, universo de predominância e cumplicidade masculina e de conhecido machismo é, na verdade, o grande trunfo do filme – baseado em argumento elogiável de Luiz Eduardo Soares.

E nem se trata de feminismo ou do recente discurso de “empoderamento” feminino. Trata-se, antes, de desmascarar esse mundo construído para homens que, para se referendar, usa o subterfúgio da doença para desmerecer a mulher. Portanto, sim, a metáfora usada faz todo sentido. Só não precisava ser tão explícita.

O filme está em cartaz nos cinemas. Em Campinas pode ser visto no Cinemark do Shopping Iguatemi, Cinépolis do Campinas Shopping e Kinoplex do Shopping D. Pedro

Tags: AlzheimerfilmeGlória PiresJoana CollierlúciaperegrinoroteirosuspeitaThiago Dottori
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João Nunes

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