Paredes opacas, luz branca, cheiro de éter e medicamentos. O ambiente hospitalar parece oferecer pouca ou nenhuma poesia aos olhos mais desatentos. Não para Heitor Moreno, médico cardiologista e docente na Universidade de Campinas (Unicamp). Para ele, o hospital é um espaço de inspiração.
“A arte médica exige, além de estudos, perspicácia e bom senso, assim como a percepção aguçada e doação de si. Estas duas últimas características estão intimamente relacionadas a poesias e ao seu conteúdo”, provoca o médico.
Heitor Moreno, além de PhD com mais de centenas de publicações científicas, tornou-se poeta autor de duas obras poéticas que se sobressaem na pilha de textos acadêmicos: “Versos que resgatei” (2023) e “Trevas” (2023). Sua terceira publicação de poesias já está em produção e se chamará “Versos na Montanha Russa”.
“Versos na Montanha Russa” será um mergulho na intimidade e na história do autor, diferente de suas duas obras iniciais.
“Somos prismáticos e multipolares, como uma montanha russa. (A obra) será uma pedra angular para a compreensão da ‘doença da alma’ deste poeta, desde a sua infância”, adianta Heitor Moreno. O livro de poesias “Versos na Montanha Russa” será lançado em janeiro de 2025.
Reconhecido pela comunidade médica, Heitor Moreno agora é também um poeta premiado. “O médico”, poesia de sua autoria, obteve o segundo lugar na modalidade de poesias do Concurso Contemporânea de Literatura – com participação de 660 poetas de 10 países de língua portuguesa – da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios. A medalha de ouro foi dada à centenária Carolina Ramos, uma das maiores poetisas brasileiras. A entrega da premiação ocorreu em Santos.
“Escrevo poesias há vários anos, mas fiquei muito surpreso com a premiação, pois escrevo por prazer, apenas”, relata o poeta. A poesia “O médico” integra a segunda obra do autor, “Trevas” (2023).
Médico poeta ou poeta médico?
Entre atendimentos no Hospital de Clínicas da Unicamp, um dos maiores do país, em Campinas, e longas aulas práticas e expositivas, Heitor dedica uma parte do seu tempo para rabiscar palavras que vêm à mente durante o exercício da profissão.
“Os sentimentos vêm aos lampejos, todos dias, mas sem hora marcada; guardo na mente apenas poucas palavras-chaves. Ao chegar em casa, escrevo o texto ainda curto nas paredes do meu escritório. Quando tenho tempo, transcrevo a forma final para o papel. Não gosto de computadores para esse processo, só uma caderneta basta”, explica o autor.
Heitor Moreno é médico cardiologista e clínico farmacologista com doutorado em Medicina pela Unicamp, além de docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Unicamp.
Na área acadêmica, tem 233 publicações científicas como autor ou co-autor. Já atuou como professor convidado da Universidade de Barcelona, Harvard e Standford. Atualmente, também é coordenador de um importante laboratório de cardiologia da Unicamp.
“O Heitor médico diagnostica e trata por amor. O Heitor professor ensina e aprende para alimentar esse amor. O Heitor poeta escreve poesias pelo encanto que a medicina e a docência trazem”, reflete o autor.

Poesias processam dores e intimidades
O tema mais comum na poesia de Heitor Moreno são as emoções humanas, das grandes alegrias da vida às tristezas mais profundas. O médico traduz o aspecto multifacetado da existência humana em suas obras. “A doença da alma, não só a do corpo, é uma condição clínica e psiquiátrica que coloca o poeta diante de todas os matizes de sua vida e de outras pessoas, desfocadas, dolorosas, plenas e lindas”, reflete.
O autor propõe ainda que existe uma poesia inerente ao fazer da medicina, a que chama de arte médica. Sua poesia premiada, “O médico”, sintetizaria essa arte. Nela, um profissional experiente faz sua visita diária a pacientes graves e terminais. Na sua atividade, ouve, conversa, medica e tenta oferecer um pequeno alento a eles. Por vezes, “mente um pouquinho”, como diz Heitor, em um “deslize de misericórdia”.
“Ao final da manhã, deixa a enfermaria com peso na alma inerente à sua missão cotidiana. Cai uma chuva densa em aleluias e paixões sobre este semideus. Escrevi esse poema lembrando “as visitas médicas que fazíamos”, eu e meu pai, aos sábados e domingos a esses doentes”. Pura poesia.












