Em 1991, lancei o livro “Terra Nave Mãe”, publicado um ano depois da deflagração da Guerra do Golfo, como ficou conhecido o conflito decorrente da invasão do Kuwait pelo Iraque. Este evento motivou a intervenção (mais uma) dos Estados Unidos e as chamadas forças aliadas do Ocidente. Um trecho do livro comenta diretamente a Guerra do Golfo (Pérsico) e suas motivações:
__ A guerra no Golfo colocou a nú o modelo de desenvolvimento industrial-tecnológico, erguido sobre a exploração de recursos naturais esgotáveis e que está sempre disposto a acionar a indústria bélica como forma de resolução de conflitos. O mais recente conflito armado no Oriente Médio denuncia mais uma vez a lógica do desenvolvimento capitalista: o mundo não pode ser refém para sempre de fontes não-renováveis e poluentes de energia como o petróleo e a energia nuclear, causas permanentes de instabilidade política e militar.
E o livro complementa: “No entanto, as lições de guerra aparentemente não foram assimiladas pelos donos do poder. Tudo o que o Ocidente – à frente os EUA – fez foi afiar o seu aparato bélico e implementar o boicote econômico, letal para uma região dependente em quase tudo. Em nenhum momento, falou-se seriamente na reformulação do modelo energético, no sentido do desenvolvimento de tecnologia para as fontes renováveis de energia, como energia eólica e solar”.
Três décadas e meia depois, nada (ou quase nada) de novo no front. A invasão do Irã pelos Estados Unidos é apenas um novo capítulo de um velho enredo. A luta pelo controle do petróleo, que continua gerando guerra, caos e aquecimento global. Mercados nervosos, o preço do petróleo subindo, bolsas caindo, instabilidade em vários países, conflito generalizado e, claro, mais gastos, e que gastos, com armamentos e com a retomada da corrida nuclear.
Sim, algo mudou nesses 35 anos que separam a Guerra do Golfo dos dias atuais. As armas ficaram mais modernas, drones de última geração varrem os céus à procura de alvos. Na Ucrânia, no Irã ou em Israel. A linguagem da indústria bélica continua ditando os caminhos da geopolítica global, assim como os investimentos em combustíveis fósseis e em armas nucleares são cada vez maiores
Um alento é que nesse período evoluiu, sim, a indústria da energia renovável, que se expande a cada ano, inclusive no Brasil, como nos parques eólicos e solares no Nordeste. Acontece que o ritmo de expansão da energia renovável não é suficiente para contrastar os impactos da exploração dos fósseis e a cada guerra que é deflagrada a corrida pelo petróleo e gás natural, sobretudo, é intensificada.
Neste contexto, a recente escalada bélica no Oriente Médio é mais um golpe, talvez definitivo, na agenda climática. Todos os esforços que têm sido feitos contra o aquecimento global foram mais uma vez golpeados. Os Estados Unidos sob Donald Trump já retrocederam em décadas nesse sentido e outros países estão indo pelo mesmo caminho.
Recente reportagem do combativo jornal The Guardian, de Londres, por exemplo, mostrou como o governo do Reino Unido tem sinalizado com cortes expressivos em ajuda a projetos climáticos nos países em desenvolvimento. O jornal cita o corte no programa Fundo de Paisagens Biodiversas, no valor de 100 milhões de libras, ou 600 milhões de reais, afetando projetos de proteção da biodiversidade em várias regiões do planeta.
Outro programa citado pelo The Guardian, que está em xeque, é o Fundo Blue Planet, avaliado em torno de 500 milhões de libras, ou 3 bilhões de reais. Blue Planet nasceu de uma série televisiva do mesmo nome dirigida pelo lendário Sir David Attenborough, sobre a degradação do ambiente marinho, intensificada pelo aquecimento global. O Fundo criado a partir da série tem representado muitas mudanças positivas em várias regiões, mas sua continuidade foi colocada em dúvida diante dos cortes que tendem a ser concretizados em iniciativas ambientais por Londres.
E assim vai. O mundo avança em alguns aspectos, retrocede em muitos outros, e a instabilidade e as incertezas continuam, ao sabor dos interesses ancorados na indústria da morte, leia-se indústria bélica e indústria dos combustíveis fósseis. Apenas uma mobilização da cidadania planetária, em defesa de valores civilizatórios inegociáveis, pode levar a uma perspectiva mais positiva de futuro. Se a corrida nuclear realimentada deixar, porque basta a explosão de uma ogiva para que o planeta – e com ele a humanidade – esteja à beira da destruição. Os avisos estão lá, em “Terra Nave Mãe”, de 1991, livro publicado pela Traço a Traço Editorial e CEPE – Centro Ecumêmico de Publicações e Estudos.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: [email protected]











