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Home Colunistas

O impacto das redes sociais na divulgação científica – por Carmino de Souza

Carmino de Souza Por Carmino de Souza
25 de agosto de 2025
em Colunistas
Tempo de leitura: 5 mins
A A
O impacto das redes sociais na divulgação científica – por Carmino de Souza

Foto: Freepik

Neste texto, reproduzo, em grande parte e com pequenos ajustes, uma publicação feita pela Zeppelini Publishers (1) a respeito do impacto das redes sociais, amplamente debatida em nossos tempos, e a divulgação científica, sempre mais regulamentada e tradicional, principalmente no mundo científico. A comunicação científica tem passado por uma transformação significativa, impulsionada, em grande parte, pelas redes sociais.

Se antes a disseminação de artigos era restrita a periódicos especializados, conferências e ambientes acadêmicos tradicionais, hoje plataformas como “X” (ex-Twitter), LinkedIn e ResearchGate praticamente se consolidaram como ferramentas para ampliar a visibilidade dessa produção.

O fenômeno democratiza o acesso ao conhecimento, e leva a novas oportunidades de colaboração, inovação e impacto, que transcendem a buscam relevância em um cenário global.

O “X” emergiu como uma das plataformas mais influentes na divulgação científica, graças à sua capacidade de condensar informações complexas em mensagens curtas e acessíveis. O formato de tweets, com limite de 280 caracteres, obriga os pesquisadores a sintetizarem seus achados de maneira clara e objetiva, facilitando a compreensão por um público mais amplo, que vai além da comunidade científica tradicional. Essa brevidade, desafia os acadêmicos a comunicar suas ideias de forma mais abrangente e impactante. Além disso, o uso de hashtags específicas, como #AcademicTwitter, #SciComm (Scientific Communication), #OpenScience e #Preprint, cria comunidades virtuais permitindo que artigos e descobertas sejam facilmente encontrados e compartilhados.

Pesquisadores de diversas áreas utilizam threads (sequências de tweets encadeados) para explicar suas metodologias, discutir resultados e até mesmo divulgar pré-prints, fomentando debates em tempo real e tornando o processo científico mais transparente. O impacto dessa interação é evidente: estudos que ganham visibilidade no “X” tendem a receber mais visualizações, downloads e, consequentemente, mais citações acadêmicas.

Essa correlação entre presença online e reconhecimento científico foi confirmada em diversas pesquisas, que apontam essa rede como uma ferramenta estratégica para o aumento do fator de impacto dos artigos. Ademais, o engajamento imediato permite que descobertas relevantes cheguem rapidamente à comunidade científica e ao público, algo fundamental em áreas como a saúde pública, onde a agilidade na disseminação da informação pode salvar vidas.

Enquanto o “X” se destaca pela agilidade e informalidade, o LinkedIn oferece um ambiente mais profissional e estruturado para a divulgação científica. Tradicionalmente voltado para o networking corporativo, ele tem atraído um número crescente de acadêmicos que buscam não apenas compartilhar suas publicações, mas também estabelecer conexões estratégicas com outros pesquisadores, financiadores e instituições. O LinkedIn já se mostrou particularmente eficaz para comunicar a aplicação prática da pesquisa, atraindo o interesse de empresas, ONGs e órgãos governamentais.

Publicar atualizações sobre artigos aceitos, projetos em andamento ou mesmo reflexões sobre o impacto da pesquisa no mundo real gera uma narrativa profissional sólida, que valoriza o pesquisador como um líder de pensamento em sua área. O algoritmo do LinkedIn favorece conteúdos que geram interações significativas, como comentários e compartilhamentos, estimulando debates construtivos e ampliando o alcance das postagens. A possibilidade de participar de grupos temáticos e comunidades acadêmicas permite discussões mais aprofundadas, troca de recursos e identificação de oportunidades de colaboração interdisciplinar.

O LinkedIn também é uma vitrine para a divulgação de eventos científicos, como conferências, workshops e webinars, aumentando o alcance dessas iniciativas para além dos círculos acadêmicos tradicionais. Para pesquisadores que buscam financiamento, a plataforma é um canal eficaz para se conectar com potenciais investidores e agências de fomento, construindo pontes entre o mundo acadêmico e o setor privado.

Entre as plataformas dedicadas exclusivamente à ciência, o ResearchGate é uma das mais proeminentes. Desenvolvido para conectar pesquisadores de todo o mundo, ele funciona como uma rede social acadêmica onde é possível compartilhar artigos, fazer perguntas técnicas, acompanhar o trabalho de colegas e até mesmo buscar colaborações em projetos específicos. O ResearchGate é, muitas vezes, descrito como o “Facebook da ciência”, mas com um foco estritamente profissional e acadêmico. Um de seus maiores atrativos é a possibilidade de disponibilizar artigos completos, permitindo que outros pesquisadores acessem o conteúdo sem as barreiras de paywalls que ainda dominam muitos periódicos científicos. Essa prática está alinhada com o movimento de acesso aberto.

Paralelamente, o RG Score, uma métrica interna que avalia o impacto e a interação de um pesquisador na plataforma, funciona como um indicativo de relevância dentro da comunidade científica. Embora haja críticas sobre o uso dessas métricas como substitutos de citações tradicionais, não se pode negar que o ResearchGate facilita a circulação de conhecimento e potencializa o alcance de pesquisas que, de outra forma, permaneceriam restritas a nichos específicos. A plataforma também oferece ferramentas para o acompanhamento do impacto dos artigos, como estatísticas de visualizações, downloads e citações, permitindo que os autores tenham um controle mais preciso sobre a disseminação de seu trabalho.

A utilização de redes sociais na divulgação científica também oferece desafios significativos. A superficialização da informação, típica de plataformas como o “X”, cria brechas para interpretações equivocadas de dados complexos, especialmente quando o público-alvo não possui formação técnica na área.

Igualmente, a simplificação excessiva pode transformar resultados preliminares em afirmações categóricas, distorcendo o real significado da pesquisa e alimentando a disseminação de desinformação científica. Evidentemente, a validação informal por meio de curtidas, compartilhamentos e comentários não substitui o rigor da revisão por pares, elemento fundamental da produção científica.

A popularidade nas redes sociais não deve ser confundida com qualidade científica, e é essencial que os pesquisadores mantenham o compromisso com a ética e a integridade na comunicação de seus resultados. Outro ponto de atenção é o risco de plágio e de uso indevido de informações, especialmente em plataformas abertas, pois a questão da propriedade intelectual é um tema sensível.

Pesquisadores precisam se atentar à forma como compartilham seus dados, protegendo descobertas sem comprometer a transparência e o acesso ao conhecimento. Além disso, iniciativas de acesso aberto e a popularização de pré-prints permitem que o conhecimento circule mais rapidamente, promovendo avanços em áreas críticas, como saúde pública, mudanças climáticas e tecnologia.

A crescente adoção de inteligência artificial para analisar tendências e interações em redes sociais também promete transformar a forma como a ciência é divulgada e consumida. Mas este é um assunto que merece grande atenção, visto a ocorrência cada vez mais frequente de casos de redação de conteúdo e plágio.

A capacidade de comunicar ciência de forma clara, ética e estratégica é um diferencial que transforma uma pesquisa relevante em um agente de impacto global. A presença nas redes sociais deve ser vista não como uma simples extensão do trabalho acadêmico, mas como uma parte integral da estratégia de divulgação científica. Afinal, em um mundo hiper conectado como o nosso, quem sabe comunicar, sabe transformar.

 

1- Zeppelini Publishers: editorial técnico e científico, para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.

 

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do Estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.

Tags: Carmino de SouzaciênciacolunistasdivulgaçãoHora CampinasInovaçãomedicinapesquisaredes sociaissaúde
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Carmino de Souza

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