De acordo com o dicionário Michaelis, o termo “idoso” refere-se a quem tem “muitos anos de vida; velho”. No entanto, a semântica vem perdendo espaço para a dignidade. Em 2022, o Projeto de Lei nº 3.646 oficializou a substituição pela expressão “pessoa idosa”, com a justificativa de que a palavra “pessoa” reforça a necessidade de combater a desumanização do envelhecimento. Essa mudança reflete uma luta por autonomia que ganha rostos e histórias em um Brasil que envelhece a passos largos.
De acordo com o IBGE, entre 2000 e 2023, a população com mais de 60 anos saltou de 15,2 milhões para 33 milhões. Em 2023, pela primeira vez, o país registrou mais idosos, representando 15,6% da população, do que jovens entre 15 e 24 anos, que somam 14,8%.
Em Campinas, por exemplo, os dados do Censo 2022 revelam que 18,37% da população já tem 60 anos ou mais, um índice que supera a média nacional. Ao todo, são 209.267 pessoas nessa faixa etária, um contingente que representa quase um em cada cinco moradores da cidade.
Embora o Estatuto da Pessoa Idosa defina que o termo “idoso” se aplica a quem possui idade igual ou superior a 60 anos, a realidade prática desse grupo buscas ignorar estereótipos de fragilidade. Miriam Martins, de 63 anos, moradora de Jaguariúna, é uma das provas de que a “terceira idade” pode ser uma das fases mais ativas da vida. “Não me incomoda o termo, porque eu não me sinto assim”, afirma ela, que divide seu tempo entre atividades físicas, vida social e a gestão de um e-commerce.
Aposentada, mas longe da inatividade, Miriam mantém uma agenda que muitos jovens teriam dificuldade em acompanhar. “Levanto cedo, faço caminhada e tenho aulas de dança duas vezes por semana ou até três vezes, se estivermos perto de competições. Também trabalho meio período em uma loja online de produtos naturais para pets com a minha irmã. Eu embalo, compro, cuido do financeiro; faço um pouco de tudo”, conta.
Além do trabalho, a tecnologia e as atualidades são suas aliadas na manutenção da saúde mental. “Uso bastante a internet para ler matérias e notícias. Gosto muito de política. A leitura melhora a memória, e eu dou muita atenção a isso agora. Tenho curiosidade de aprender e gosto de conversar”, completa.
Para sustentar casos como o de Miriam, o Sérgio Alves, geriatra do Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” (CEJAM), explica que a idade de uma pessoa não se resume ao ano de nascimento. Segundo o especialista, o envelhecimento deve ser compreendido através de três pilares: a idade cronológica, que é o número registrado nos documentos; a idade biológica, que reflete o estado real de funcionamento das células e órgãos; e a idade funcional, que diz respeito à capacidade de realizar atividades diárias e manter a independência.
“Uma pessoa de 70 anos pode ter um corpo que funciona como o de alguém de 50, se tiver hábitos saudáveis, ou como o de alguém de 90, se tiver muitas doenças e um estilo de vida prejudicial”, explica o médico.
Para o especialista, o termo “idoso” muitas vezes falha em traduzir essa diversidade. “Essa generalização pode reforçar estereótipos, associando a velhice à dependência ou inatividade. É preciso reconhecer que essa fase é tão diversa quanto a juventude ou a vida adulta. Existem idosos que são avós, outros que são estudantes universitários, empreendedores, atletas ou voluntários”, pontua o Dr. Sérgio.
A diversidade é tamanha que ele explica a existência de uma nova categoria: a chamada “quarta idade”. O conceito engloba uma fase mais avançada do envelhecimento, geralmente a partir dos 80 ou 85 anos.
“É um período que se distingue da terceira idade por características específicas. Nessa fase, é mais comum que as pessoas apresentem múltiplas condições de saúde, maior fragilidade e uma dependência mais acentuada. No entanto, é crucial lembrar que mesmo na quarta idade há uma grande variabilidade. Muitas pessoas com mais de 80 anos mantêm uma excelente qualidade de vida e participação social”, detalha.
O Poder do Movimento e da Coletividade
A trajetória de Miriam no esporte começou como uma resposta à solidão. Mãe de duas mulheres e hoje avó, ela viu os filhos “voarem” e sentiu, também com a aposentadoria, o peso do isolamento. Encontrou no Projeto Viva Melhor, da prefeitura de Jaguariúna, uma nova família.

“Eu me sentia sozinha e estava me acomodando. Vi um anúncio de aulas de dança e me inscrevi. No começo foi difícil, estava tudo ‘enferrujado’ e as dores apareceram, mas a gente vai superando aos poucos”, relata.
O esforço rendeu frutos expressivos: Miriam integra a equipe de coreografia que conquistou os tradicionais Jogos da Melhor Idade (JOMI) em 2024 e 2025. Além disso, garantiu o título na categoria 60+ no Festival de Dança de Joinville, considerado o maior do mundo pelo Guinness Book. Orgulhosa, ela ostenta as medalhas da conquistas, símbolos de muita luta, perseverança e ressignificação.
Sérgio Alves ressalta que os benefícios vão muito além das medalhas: “A atividade física atua em diversas frentes. Ajuda a manter a força muscular e a densidade óssea, prevenindo quedas e fraturas. Também contribui para a saúde cardiovascular e tem um impacto positivo na saúde mental, ajudando a combater a depressão e a ansiedade”.
Miriam confirma que a dança mudou seu físico e sua mente. “Não fez bem só para a minha saúde física, mas para a mental também. Estando bem mentalmente, a saúde tende a melhorar cada vez mais. Eu tinha dores no joelho e nos ombros, e até perdi peso praticando”, diz. Além disso, outra grande vitória foi a recuperação da autoestima.
“Eu ficava de pijama em casa, com aquele ‘camisetão’. Hoje, me preocupo se meu cabelo está bom, como vou me vestir”, revela.
Ela também destaca o papel social do grupo. “Ganhamos amigos de verdade. A gente combina churrasco, pizza e até uma cervejinha. Eu sou a que mais gosta de cerveja no grupo”, brinca. Segundo o geriatra, esse convívio é vital: “O isolamento social é um risco sério. Pode gerar sentimentos de solidão e inutilidade, além de estar associado a um maior declínio cognitivo. A mente precisa de estímulos para se manter afiada”.
Um Brasil que Envelhece
Somado ao atual crescimento da população mais velha, projeta-se que, em 2070, os idosos representem 37,8% dos brasileiros, de acordo com o IBGE. Com o aumento contínuo da população nessa faixa etária, o médico Sérgio Alves alerta que o Brasil deveria parar de confundir envelhecimento com incapacidade.
“Vemos atitudes paternalistas, onde familiares decidem pelos pais sem consultá-los, ou quando a sociedade não oferece espaços acessíveis. Existe o mito de que o idoso não aprende ou que sua sexualidade acaba, por exemplo”.
Miriam concorda e destaca episódios em que se sentiu desrespeitada: “Primeiramente, olhem com olhos limpos para nós, pessoas idosas. Não olhem com crítica, pensando ‘aquela velha lá’. Já aconteceu de eu estar dirigindo, alguém me ultrapassar e dizer: ‘só podia ser velha mesmo’. Isso é muito comum e não é assim que se trata as pessoas. Eu, como tantas outras pessoas da minha idade ou mais, temos capacidade. Basta querer. Não podemos nos limitar ao que a sociedade pensa; temos que acreditar em nós mesmos e viver da melhor maneira possível”.
Ela também alerta para que outras pessoas idosas não caiam no isolamento, como aconteceu com ela no passado: “São porçõezinhas que vão levando a pessoa até uma depressão e ao comodismo de pensar: ‘Já fiz minha obrigação, tive filhos, casei, criei… agora é viver o hoje e amanhã sabe-se lá o que vai acontecer’. Não é assim que a gente deve pensar. Temos que viver o hoje planejando o amanhã. Eu quero viver muito, muito mesmo. Eu amo viver”.









