“Dê tempo ao tempo”, dizem os mais experientes, como se os ponteiros de um relógio carregassem uma pomada mágica capaz de cicatrizar feridas invisíveis. Mas, se fosse assim tão simples, não veríamos tantos adultos carregando dores da infância como quem leva uma mala pesada pelas costas. O tempo, por si só, é apenas calendário: passa, sim, mas não garante que você tenha atravessado nada. No máximo, ele oferece distância; se houve cura ou apenas esquecimento, isso é outra história.
Na perspectiva psicanalítica, a ferida emocional ignorada não se dissolve no ar. Ela se desloca, muda de roupa, aparece em outros lugares nos sonhos, nas escolhas amorosas, no corpo. Freud já alertava: o que não é elaborado, retorna. Retorna no sintoma, no ato falho, na ansiedade que não tem nome. O sujeito pode até jurar que superou, mas às vezes está apenas “colocando um pano” sobre a ferida, evitando olhar para ela, como quem varre o pó para debaixo do tapete. O problema é que, cedo ou tarde, tropeçamos nesse tapete.
Fingir que nada aconteceu é a versão emocional de “deixar a porta trancada com a chave dentro da fechadura”. A dor fica lá, à espreita, e quando o silêncio é profundo demais ou a vida desacelera, ela bate e bate forte. A psicanálise nos provoca a sair do conforto anestésico do esquecimento e tocar, sim, na ferida. Não como masoquismo, mas como caminho para ressignificar. Porque só aquilo que é olhado de frente pode ser simbolizado e, finalmente, ganhar um lugar saudável na história de quem somos.
Do ponto de vista filosófico, a questão do tempo e da cura também se cruza com a reflexão de Agostinho: o tempo não existe como entidade fixa; ele é experiência interna, memória, expectativa. O passado só permanece na medida em que é lembrado ou, pior, na medida em que é lembrado inconscientemente. Assim, o “tempo que cura” talvez seja menos o tempo cronológico e mais o tempo vivido conscientemente: aquele em que você se dispõe a entrar em contato com a dor e criar, no presente, um sentido novo para ela.
A cultura popular, porém, adora as frases fáceis. “O tempo cura tudo” é uma delas. Conveniente, simples, indolor. Mas e se essa crença for apenas uma forma de manter a distância segura de sentimentos incômodos? A lógica é tentadora: não mexa na caixa onde estão as lembranças ruins e, com o tempo, talvez ela apodreça e desapareça. Só que, na prática, a caixa vaza. Às vezes, na forma de irritação sem motivo, de insônia, de distanciamento emocional.
O tempo pode, sim, ajudar, mas como coadjuvante nunca como protagonista. Ele dá espaço para que a dor não seja tão aguda, para que possamos olhar para ela com menos vertigem. Mas quem cura é o trabalho interno: é a coragem de abrir a ferida, limpar, tirar os detritos, costurar e acompanhar o processo. Sem isso, o tempo só coloca uma gaze que, cedo ou tarde, se desfaz.
A provocação é simples, se você pensa que superou, pergunte-se: realmente superei ou apenas me distraí? A distração é irmã gêmea do adiamento. E, na psicanálise, sabemos que aquilo que é adiado pela consciência é cultivado pelo inconsciente. Talvez o maior engano seja achar que não tocar na ferida nos protege. Às vezes, é justamente o silêncio que a alimenta.
O tempo é neutro. Ele não quer, não escolhe, não cura sozinho. Ele apenas passa. Quem decide se vai usar esse tempo para curar ou para se esconder é você. E aí vem a questão final: você vai esperar a dor envelhecer junto com você ou vai, finalmente, sentar-se diante dela, oferecer-lhe um nome e transformá-la em algo que possa caminhar ao seu lado sem mais comandar o rumo da sua vida?
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL) – Instagram @institutopontes_oficial







