O vício pelo cigarro pode ser compreendido, à luz da psicanálise, não apenas como uma questão de dependência química, mas como um fenômeno profundamente enraizado no inconsciente e nas relações do sujeito com o prazer, a falta e o desejo. Freud, ao desenvolver a teoria das pulsões, já indicava que certos comportamentos repetitivos, mesmo quando prejudiciais, estão ligados à busca de satisfação imediata e à tentativa de lidar com tensões internas. Nesse sentido, fumar não se reduz a um hábito, mas torna-se um modo de expressão da economia psíquica. O artigo de hoje se refere a tal vício dado a demanda de pedidos que tive para analisar tal hábito sob o olhar da psicanálise inclusive pedidos de pacientes meus que visam, através da publicação e leitura do texto, ajudar quem seja refém de tal vício. Posso contar com sua companhia nessa reflexão minha querida leitora, meu caro leitor? Ótimo, então vamos à ela.
A fumaça do cigarro, envolta em gestos ritualísticos, oferece ao sujeito uma sensação de controle ilusório sobre sua angústia.
O ato de tragar, inspirar e expirar o fumo pode remeter simbolicamente ao primeiro vínculo da criança com o seio materno, quando a boca foi a principal zona erógena. Assim, o cigarro, no adulto, pode funcionar como substituto desse objeto primordial perdido. Não se trata apenas da nicotina, mas de um retorno inconsciente ao estágio oral, no qual a satisfação está ligada ao ato de sugar e à presença do outro que alimenta.
Nesse quadro, o cigarro aparece como objeto transicional: algo que conforta, ocupa o vazio e acalma ansiedades que não encontram elaboração psíquica. Ao mesmo tempo, a fumaça também pode ser vista como metáfora do desejo: algo que surge, envolve, mas logo se dissipa, deixando o sujeito novamente entregue à falta.
A compulsão em acender mais um cigarro revela a tentativa incessante de tamponar um mal-estar estrutural, inerente à condição humana. Lacan sublinharia que o cigarro se coloca como objeto a, aquilo que representa a causa do desejo, sempre inacessível em sua plenitude. O fumante, então, mantém-se preso em um circuito de repetição, onde a promessa de satisfação nunca se realiza completamente.
Do ponto de vista clínico, a psicanálise não se limita a propor a interrupção do hábito, mas busca compreender o lugar que o cigarro ocupa na economia subjetiva de cada pessoa. Pergunta-se: o que o sujeito tenta calar com a fumaça? Que vazio ele busca preencher? A escuta analítica pode auxiliar o indivíduo a nomear sua angústia, a dar sentido ao que o leva a esse ato repetido e, gradualmente, a encontrar outras formas de lidar com seu desejo e sua falta
Assim, o vício em fumar não é apenas um problema de saúde pública, mas também um sintoma que revela, na intimidade do sujeito, a complexa relação entre prazer, angústia e desejo.
Ao refletir sobre esse hábito, pode ser fecundo que o fumante se interrogue: o que sinto imediatamente antes de acender um cigarro e que tipo de vazio ele parece preencher em mim? Em quais momentos do meu dia essa necessidade se torna mais intensa e que lembranças ou vínculos afetivos podem estar associados a ela? De que maneira o cigarro funciona como um modo de acalmar minha ansiedade ou silenciar meus pensamentos, e o que temo encontrar em mim mesmo quando não tenho esse recurso por perto? Que parte da minha identidade está ligada à imagem de ser fumante e, caso eu abandonasse o cigarro, o que sentiria que estaria perdendo além da nicotina?
Por fim, o que a fumaça representa simbolicamente para mim: proteção, companhia, ilusão de controle, ou talvez a tentativa de lidar com uma falta que nunca se preenche por completo?
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







