Durante a COP-30, que começa em dois meses em Belém, organizações da sociedade civil de todo o planeta vão aumentar a pressão contra o uso da geoengenharia para resolver a emergência climática global. A geoengenharia contempla tecnologias que promovem a chamada Modificação da Radiação Solar (SRM na sigla em inglês).
São tecnologias que prometem o resfriamento da temperatura terrestre, com base em ações promovendo o reflexo da luz solar de volta para o espaço. As soluções SRM envolvem por exemplo a construção de gigantescos “guarda-chuvas” que seriam levados ao espaço, para refletir a luz solar, ou a emissão de partículas artificiais criando uma “nuvem” gigantesca com o mesmo objetivo.
Pode parecer ficção científica, mas essas tecnologias estão ganhando força, com grande apoio, claro, dos setores que não querem a redução e muito menos a eliminação imediata do uso dos combustíveis fósseis. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) tem promovido várias discussões sobre o tema, inclusive uma consulta on line a cientistas no início deste mês de setembro, mas o órgão não fica isento de críticas por ter convidado muitos especialistas claramente favoráveis à propagação das tecnologias de geoengenharia.
O Conselho Consultivo Científico da Secretaria Geral das Nações Unidas publicou um documento sobre as tecnologias de SRM. Em síntese, o documento assinala que “as tecnologias para alterar as capacidades reflexivas da superfície e da atmosfera da Terra podem reduzir de forma relativamente rápida o aumento da temperatura e resfriar o planeta. No entanto, eles também podem gerar uma ampla gama de consequências não intencionais, incluindo resfriamento desigual, maior variabilidade climática, interrupções na estratosfera inferior e média, chuva ácida e podem reduzir os incentivos para mitigar as emissões globais de gases de efeito estufa”.
As principais críticas às tecnologias artificiais de resfriamento da Terra partem de grupos da sociedade civil planetária, como o Grupo ETC, que abrange cientistas de vários países. A organização participou da 20ª Conferência Ministerial Africana sobre o Meio Ambiente (AMCEN20), realizada no último mês de julho, em Nairobi, no Quênia, na qual os governos africanos representados foram unânimes na “rejeição de tecnologias perigosas de geoengenharia solar”.
“Reiteramos nossa posição de que tais tecnologias representam riscos ambientais, éticos e geopolíticos significativos e incertos, e não devem ser consideradas como opções viáveis dentro da agenda ambiental multilateral”, afirma um trecho da declaração final da AMCEN20. “Gostaríamos de reafirmar nossa total rejeição a qualquer tentativa de promover a injeção de aerossol estratosférico (SAl) ou outras formas de tecnologia de geoengenharia solar como uma solução de mitigação das mudanças climáticas”, completou a declaração, em que os países africanos representados defenderam ainda um acordo global de não uso da geoengenharia solar.
De qualquer forma, essas tecnologias continuam sendo incentivadas e desenvolvidas, com muitos recursos envolvidos. Organizações como o Grupo ETC estão intensificando seus esforços, em função da proximidade da COP-30, no sentido de alertar a sociedade global para os riscos das soluções de geoengenharia, que desviam a atenção da questão central, que é a eliminação progressiva e mais rápida possível da queima de combustíveis fósseis, e com a consequente adoção de energias de fato limpas e sustentáveis. Essa é a única e efetiva saída para a emergência climática global, cada vez mais grave.
Entre outros sinais, as recentes enchentes no Paquistão, que deixaram um terço do país debaixo d’água, resultaram na migração imediata de 2 milhões de pessoas, até que a situação voltasse ao “normal”. “As chuvas de monção particularmente fortes do Paquistão, que começaram em 26 de junho, continuam a causar estragos em grandes partes do país, com a província de Punjab sofrendo o impacto dos rios transbordando e das inundações subsequentes”, afirmou relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês), divulgado no início de setembro, mais de dois meses depois, portanto, do início das chuvas torrenciais. E grande parte do Brasil, por outro lado, tem vivido uma seca intensa nos últimos meses, claramente agravada pelas mudanças climáticas. A COP-30 vai ser literalmente “quente” e a questão da geoengenharia também terá que ser debatida, sob pena do planeta continuar apostando em saídas que claramente não vão equacionar a grave crise climática em curso e cada vez mais dramática.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







