Os prefeitos eleitos ou reeleitos nos 20 municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC), que tomam posse em janeiro próximo, terão pela frente enormes desafios de ordem socioambiental. Em 2025 a RMC completa 25 anos e a lembrança da data coincide com muitas decisões importantes que precisarão ser tomadas pelo conjunto dos municípios.
Um desses desafios de grande magnitude será a preparação das cidades para o enfrentamento das mudanças climáticas. Preparação em mitigação e adaptação. E nesse sentido a RMC conta com passivos ambientais significativos, mas também com ativos relevantes, que podem fazer a diferença.
O fracasso de mais uma COP do Clima, esta que acaba de ser realizada em Baku, no Azerbaijão, deixou mais do que nunca evidente o papel das cidades diante das mudanças do clima. Porque não se pode mais esperar nada de negociações macro, no âmbito de governos e grandes corporações. O caminho por aí não tem futuro.
A COP-29, no Azerbaijão, e a anterior, em Dubai, assim como quase todas as precedentes, foram sempre marcadas por decisões muito limitadas diante da gravidade da emergência climática. O planeta já atingiu a elevação de 1,5 grau C, como revelou o observatório europeu Copernicus. Esse era o limite estabelecido no Acordo de Paris de 2015. Os patamares de concentração de dióxido de carbono na atmosfera são também cada vez maiores, desde a histórica Conferência Rio-92, de junho de 1992 no Rio de Janeiro.
Enfim, as COPs correm o risco de se consolidar como grandes espetáculos midiáticos, um faz-de-conta, enquanto as decisões de fato são tomadas nos bastidores, como aquelas dos grandes interesses dos combustíveis fósseis que continuam planejando investir ainda mais nessa fonte energética que está colocando a vida no planeta em xeque.
Apenas haverá transformações de fato, no sentido de aceleração da transição energética e combate ao desmatamento, se houver uma grande mobilização da cidadania planetária, e esse movimento apenas pode ocorrer na esfera das cidades.
E nesse sentido o desafio é ainda maior, porque ainda não existe clareza para grande parte da cidadania sobre os riscos que o planeta está passando com as mudanças do clima. E que estão aliadas a outras crises gigantescas, como a extinção da biodiversidade e a poluição em geral, incluindo a da alta concentração de plásticos.
Talvez uma mudança de percepção possa ocorrer com o tratamento de dramas reais vividos pela população nas cidades. No caso da RMC, são várias questões que precisarão ser enfrentadas em futuro próximo, com os dilemas das mudanças climáticas como pano de fundo. Mas são questões muito concretas, visíveis para as comunidades.
Uma dessas questões é o da preparação das áreas urbanas para eventos climáticos extremos como grandes tempestades, resultando em enchentes como as ocorridas no Rio Grande do Sul no início do ano.
Em termos da RMC, existem situações crônicas de enchentes, como as verificadas no rio Capivari, atingindo Monte Mor e Capivari, e também as enchentes no ribeirão Quilombo, que nasce em Campinas e atravessa Sumaré e Nova Odessa, antes de desaguar no rio Piracicaba em Americana.
A construção de piscinões, como os que estão projetados para Campinas, é uma das soluções apontadas para o combate às enchentes. Mas o conjunto dos municípios da RMC, com áreas de alta impermeabilização do solo e crescentemente conurbadas, como entre Campinas, Sumaré e Hortolândia, também será desafiado a planejar áreas que atuem como “esponjas”, para absorver a água das chuvas. Nesse sentido a ampliação do reflorestamento é igualmente fundamental para a região, de modo a também contribuir para absorver a água das chuvas.
Outro desafio para a região será em outra vertente, a de se preparar para o oposto, para uma estiagem prolongada, possibilidade também existente no contexto dos eventos climáticos extremos. A região que já sofreu muito com a forte estiagem de 2014-2015 não pode se dar ao luxo de passar por algo semelhante de novo.
Alguns municípios estão investindo em reservatórios próprios, como Indaiatuba e Santa Bárbara D´Oeste. A região também aguarda a solução para as barragens de Pedreira e Amparo, que reverterão na maior disponibilidade hídrica para o conjunto dos municípios, mas permanece em aberto a questão do transporte da água, por redes de adutoras.
Esses são alguns dos desafios, mas a RMC também conta com ativos que podem colaborar na tarefa coletiva de enfrentamento das mudanças climáticas. Como fruto de um trabalho de cooperação, está sendo montado na Unicamp um radar meteorológico de alta potência, que contribuirá muito para uma melhor preparação para eventos climáticos extremos. Esse radar é resultado de anos de esforços, de atores como a Câmara Temática de Defesa Civil da RMC, e foi materializado com um significativo investimento do Fundocamp, o fundo que apoia projetos de interesse comum da região.

O processo de aquisição do radar teve todo o apoio do Conselho de Desenvolvimento da RMC, na presidência de Gustavo Reis, prefeito de Jaguariúna. A decisão pela compra do radar foi tomada logo depois de um evento climático extremo que atingiu a região, a microexplosão atmosférica de 5 de junho de 2016 em Campinas. Logo no Dia Mundial do Meio Ambiente.
A RMC já tinha sentido o impacto de um tornado de vórtices múltiplos em Indaiatuba, em 24 de maio de 2005. A região já pressentia, então, a necessidade de preparação para eventos climáticos extremos, que na época eram alertados por cientistas, como consequência das mudanças climáticas em curso, mas ainda sem a atenção geral de governos e grande parte da sociedade.
O radar meteorológico ficará sob responsabilidade da Unicamp, e esse é outro ativo precioso para a região.
A Universidade Estadual de Campinas e todo o ecossistema de ciência, tecnologia e inovação existente na RMC também podem contribuir muito para a superação de desafios socioambientais na região, o enfrentamento das mudanças climáticas entre eles. A transição energética é um campo para o qual o polo de C&T&I da RMC pode contribuir de forma expressiva.
Existem sinais de maior aproximação entre o polo de ciência e tecnologia e as Prefeituras e comunidade em geral e uma qualificação desse relacionamento resultará sem dúvida em avanços para a Região Metropolitana de Campinas. Avanços que a RMC vai obter, se os interesses comuns, coletivos, efetivamente foram levados em conta, acima de interesses particulares, institucionais ou partidários. O bem comum acima de tudo.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







