A presença de uma onça-parda no centro de Vinhedo, no sábado passado (14), chamou a atenção da população e mobilizou bombeiros e autoridades ambientais na região de Campinas. O felino, jovem e saudável, foi encontrado no quintal de um lava-rápido na área central da cidade e resgatado com o uso de tranquilizantes pela Associação Mata Ciliar. Após o procedimento, foi encaminhado à sede da entidade, em Jundiaí.
Segundo Jorge Bellix, engenheiro agrônomo e presidente da Associação Mata Ciliar, o animal tinha entre 1 e 2 anos e provavelmente havia saído de uma área de vegetação próxima às represas da cidade em busca de um novo território — comportamento comum entre jovens onças que, ao atingirem a fase adulta, são naturalmente afastadas pelas mães para que busquem novas áreas de vida.
Ao chegar ao local, a equipe avaliou a situação: a Guarda Municipal já havia isolado o quarteirão e o Corpo de Bombeiros estava presente. Em conjunto, foi organizada uma operação de resgate.
Jorge explica que esse tipo de ação é diferente da captura de um animal em vida livre, no seu habitat. Nesse caso, o felino estava em situação que poderia oferecer risco tanto para quem realizava o resgate quanto para a própria população, já que ele poderia fugir e se perder na cidade. O planejamento foi feito com cautela, para reduzir a possibilidade de fuga e permitir a sedação segura com arma anestésica.
Embora surpreendente, a ocorrência não é rara. Só em 2024, seis onças-pardas foram resgatadas pela Associação, e cerca de 15 notificações foram registradas, envolvendo suspeitas de presença do animal em áreas urbanas da Região Metropolitana de Campinas (RMC).
De acordo com Jorge Bellix, esse tipo de aproximação tem se tornado mais frequente por três fatores principais: o avanço desordenado da urbanização, o aumento do monitoramento por câmeras e a presença histórica desses animais nas áreas que hoje são urbanizadas. “O que mudou foi a nossa percepção. Eles sempre estiveram aqui”, pontua.
Ele explica que o crescimento acelerado das cidades dificulta a adaptação da fauna silvestre, aumentando os encontros com humanos. “Quanto mais rápido o crescimento, menor o tempo de adaptação dos animais às mudanças que influenciam no ambiente deles, fazendo com que o encontro desses animais com os humanos se torne mais frequente.”
Além disso, animais como as onças-pardas são solitários e, ao atingirem a maturidade, precisam buscar novos territórios.
“Uma onça fêmea vai ter entre três e quatro filhotes que, quando chegam na idade de jovem pra adulto, ela vai expulsar… para que eles busquem outros territórios, encontrem outros parceiros e outros espaços para a sua vida”, explica. Com a vegetação fragmentada, esses deslocamentos tornam os felinos mais visíveis e vulneráveis ao cruzarem áreas abertas.

Outro ponto é o aumento da vigilância eletrônica. “Vai ser comum que se observe mais. Isso causa um estranhamento, do tipo de espanto da população que fica surpresa ao visualizar o animal. Mas, na realidade, eles sempre estiveram ali, isso precisa ficar muito claro”, destaca Bellix.
Por fim, ele lembra que os centros urbanos passaram a oferecer condições atrativas para a fauna. A presença de lixo e áreas verdes desordenadas atrai pequenos animais, como saguis, capivaras e tucanos — o que, por sua vez, aguça os seus predadores. “A cidade gera abrigo, alimento fácil e segurança para espécies que antes tinham que competir mais na natureza”, afirma.
Apesar do resgate bem-sucedido, a reintegração da onça à natureza ainda não tem data definida.
A equipe da Associação estuda, junto ao Município de Vinhedo, o melhor local para soltura. A intenção é encontrar uma área a mais próxima possível de onde o animal surgiu, para facilitar sua readaptação a um novo território.
Bellix alerta também para os riscos da aproximação entre humanos e animais silvestres. A orientação da Mata Ciliar é clara: nunca tente interagir, alimentar ou domesticar animais nativos. “A convivência deve ser de observação, não de aproximação. Além do risco de doenças, isso pode causar impactos graves no comportamento dos animais”, ressalta.

Um exemplo disso é o hábito comum de alimentar saguis. Segundo ele, essa prática pode desencadear surtos de doenças entre os grupos. “Nós somos portadores de herpes, por exemplo, e temos resistência. Um simples pedaço de bolacha dado ao animal pode transmitir o vírus e dizimar um grupo inteiro”, alerta. A recomendação é simples: ao avistar um animal silvestre, mantenha distância e acione os órgãos ambientais ou a Guarda Municipal.
A atuação da Associação Mata Ciliar
Fundada em 1997, a Associação Mata Ciliar atua na conservação da fauna e da flora brasileiras. Com sede em Jundiaí, abriga o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) e o Centro Brasileiro para Conservação dos Felinos Neotropicais. A estrutura já reabilitou mais de 11 mil animais, sendo referência internacional em resgate e soltura de grandes felinos.
A entidade também mantém unidades em Araçatuba e Jaboticabal, em parceria com universidades como a Unesp. Entre suas frentes estão a educação ambiental, a restauração florestal e a capacitação de profissionais para o manejo da fauna.
Em média, são atendidos de 25 a 30 animais por dia — a maioria, aves vítimas de tráfico, cativeiro ilegal ou acidentes. Mas também chegam veados, porcos-do-mato, serpentes, lobos-guará e outros. “Infelizmente, muitos chegam vítimas de atropelamentos, choques elétricos, envenenamentos ou caça”, lamenta Bellix.
Segundo ele, a Associação atua como uma “ponta de lança” em todo o estado de São Paulo — e também em outras regiões do Brasil, especialmente quando se trata de grandes felinos. Pequenos animais, como aves e répteis, são geralmente encaminhados por prefeituras conveniadas, Polícia Ambiental ou Corpo de Bombeiros. Atualmente, a Mata Ciliar mantém parcerias com 23 municípios paulistas.
Para isso, a equipe promove treinamentos periódicos com agentes municipais, garantindo segurança tanto para os profissionais quanto para os animais durante os resgates. “Não somos um abrigo nem um santuário. Aqui, os animais são recuperados, reabilitados e devolvidos à natureza”, reforça Bellix.

A onça-parda
A onça-parda (Puma concolor) é o segundo maior felino do Brasil. Altamente adaptável, habita todos os biomas do País e pode ocupar desde florestas densas até áreas abertas, como campos e regiões de cultivo, além de se aproximar de zonas urbanizadas.
Seu corpo pode atingir até 2,75m de comprimento e pesar entre 22 e 70 quilos, variando conforme a latitude — indivíduos de regiões mais próximas ao Equador tendem a ser menores.
De hábitos solitários e predominantemente noturnos, a onça-parda se alimenta de uma grande variedade de presas, desde pequenos roedores até veados, o que contribui para sua ampla distribuição.
No Brasil, sua dieta é composta principalmente por animais de pequeno a médio porte, estratégia que reduz a competição com a onça-pintada.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o aumento nos registros de onças-pardas em áreas urbanas está relacionado à severa perda de habitat, escassez de presas e à expansão de rodovias.
A espécie sofre um declínio populacional em toda sua distribuição — que se estende do Canadá ao sul dos Andes —, agravado por atropelamentos, caça e crescimento urbano desordenado.
Mesmo com ampla área de ocorrência, a onça-parda tem populações naturalmente pequenas e baixa taxa de reposição, o que torna sua conservação ainda mais urgente.
No Brasil, está classificada como vulnerável, e sua presença nas cidades é um sinal claro de desequilíbrio ambiental, exigindo políticas públicas de manejo, conservação e conscientização












