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Home Saúde e Bem-Estar

Por que aumentaram os acidentes com escorpião? Butantan explica

Artrópode se adapta facilmente a espaços alterados pela ação humana; espécies naturais de outros países da América do Sul já são encontradas em estados brasileiros

Redação Por Redação
16 de fevereiro de 2026
em Saúde e Bem-Estar
Tempo de leitura: 5 mins
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Por que aumentaram os acidentes com escorpião? Butantan explica

O escorpião-amarelo é o principal responsável pelos acidentes do Brasil. Fotos: Agência SP

O Brasil observou um salto expressivo nos acidentes provocados por picadas de escorpião nos últimos 10 anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, as notificações passaram de cerca de 85 mil em 2015 para mais de 200 mil em 2023, ano recorde da série histórica – um aumento de 230% quando comparado ao período de 2005 a 2015.

A bióloga e assistente técnica de apoio à pesquisa do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan Denise Candido explica que o crescimento substancial está relacionado à interação de diversos fatores. Entre eles estão a urbanização acelerada, os impactos das mudanças climáticas e a consequente perda de biodiversidade, além das próprias características biológicas do animal.

O cenário consolida o escorpionismo como um relevante problema de saúde pública no país e revela um quadro de desequilíbrios e transformações ambientais.

 

Cidades em expansão

O avanço desordenado das cidades sobre áreas naturais muitas vezes vem atrelado a lacunas de infraestrutura, como falta de saneamento básico e acúmulo de lixo. Tudo isso contribui para que os novos ambientes urbanos se tornem ideais para a proliferação de espécies oportunistas, devido à abundância de baratas – principal presa do artrópode – e à disponibilidade de abrigo.

“Existe uma dinâmica muito particular, pois ao mesmo tempo em que o ser humano invade o habitat natural do escorpião, ele cria as condições ideais para que o animal se prolifere”, afirma Denise Candido.

Em São Paulo, por exemplo, tal processo favoreceu a alteração da espécie predominante em diversas regiões do estado – o que pode ter contribuído para o aumento dos acidentes. Antes amplamente distribuído em ambientes de mata úmida, o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), perdeu espaço para o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), uma vez que o último se adapta melhor a ambientes alterados pela ação humana.

Outro fator que colabora para o aumento do T. serrulatus em áreas urbanas é a sua capacidade de reprodução por partenogênese. Nesse processo, as fêmeas da espécie são capazes de gerar descendentes sem necessidade de acasalamento com o macho.

“Na prática, isso significa que um único indivíduo pode dar origem a toda uma população, desde que encontre alimento, abrigo e água – itens geralmente abundantes nas grandes cidades”, observa a bióloga.

A especialista também ressalta o papel-chave das redes subterrâneas de água e esgoto na dispersão do animal em grandes centros, uma vez que as galerias oferecem acesso a diferentes pontos de uma cidade e proporcionam condições ideais de abrigo e alimentação.

Quase 80 mil frascos do soro antiescorpiônico foram entregues pelo Butantan ao Ministério da Saúde em 2024

O calor também é um fator relevante na dinâmica com o artrópode. Afinal, é durante o período de altas temperaturas que eles ficam mais ativos, locomovendo-se com frequência em busca de alimentos e intensificando sua capacidade de replicação por meio da partenogênese. Não à toa, os registros de acidentes por picada de escorpião aumentam sensivelmente a partir do mês de outubro todos os anos.

Já o escorpião-do-nordeste (Tityus stigmurus), natural da região, hoje ocupa diferentes estados do Sul e Sudeste. Assim como o escorpião-amarelo, a espécie se reproduz por partenogênese e é altamente adaptável a ambientes urbanos, sendo também uma das principais causadoras de acidentes no país.

“No Centro-Oeste e no Sudeste, temos registros crescentes de espécies consideradas de interesse médico na Argentina, como o Tityus confluens e o Tityus trivittatus, indicando um possível processo de adaptação ecológica em curso”, ressalta Denise Candido.

A facilidade com que o animal se estabelece em ambientes modificados é consequência direta de sua biologia. Presentes no planeta Terra há cerca de 450 milhões de anos, os escorpiões desenvolveram uma série de mecanismos para sua proteção: são capazes de “bloquear” seu sistema respiratório para evitar intoxicação, suportam longos períodos submersos na água e até detectam vibrações no ambiente por meio de pelos e órgãos sensoriais. “Gosto de compará-los a ‘mini’ tanques de guerra”, brinca a especialista do Biotério de Artrópodes.

Tais características tornam as tentativas de eliminação do animal por meio do uso de produtos químicos pouco eficazes. “Observamos que quando um espécime é atingido pelo produto, mas não morre, ele tende a fugir de seu esconderijo. Isso pode ampliar as chances de contato com humanos”, alerta.

A busca ativa e a coleta física de escorpiões por pessoas devidamente capacitadas ainda são os métodos mais eficientes de controle. A estratégia é preconizada pelo Ministério da Saúde, que oferece treinamentos presenciais aos profissionais que atuam na linha de frente no combate e controle do animal.

Além disso, a Escola Superior do Instituto Butantan (ESIB) oferece cursos de extensão universitária e divulgação científica sobre o tema.

 

Aumento das notificações e expectativas para o futuro

Parte do crescimento do volume de notificações de acidentes com escorpião no Brasil também reflete a melhoria dos sistemas de vigilância de saúde.

Se no passado os registros eram realizados manualmente, hoje as notificações são feitas em ambiente virtual, por meio de plataformas de informação cada vez mais rápidas e unificadas. O próprio Ministério da Saúde mantém um Painel Epidemiológico de Acidentes por Animais Peçonhentos que pode ser acessado por toda a população, permitindo a visualização de dados atualizados praticamente em tempo real.

Ainda assim, Denise Candido é enfática: “O que vemos não é apenas reflexo dessa melhora no registro de notificações, mas também um aumento real dos acidentes. São dois movimentos que acontecem ao mesmo tempo.”

Em relação às projeções para as próximas décadas, os números devem seguir em crescimento, ainda que com padrões distintos entre as espécies. Em relação ao escorpião-amarelo, por exemplo, a expectativa é que sua distribuição continue expandindo até alcançar um ponto de estagnação.

Denise explica que, a longo prazo, isso possa acontecer por reflexo da partenogênese, uma vez que a forma de reprodução restringe a variabilidade genética da espécie, podendo diminuir sua dispersão.

Por outro lado, espécies oportunistas ou até mesmo desconhecidas podem apresentar potencial para ocupar nichos deixados por animais nativos menos resistentes – como vem sendo observado no Sudeste com o T. stigmurus –, ampliando a diversidade de escorpião em áreas urbanas.

“Todos esses cenários em potencial representam um crescimento significativo de acidentes nos próximos 50 anos, sobretudo em cidades com baixa cobertura vegetal e com reduzida presença de predadores naturais de escorpião – caso dos sapos, corujas, lagartos e de alguns pequenos mamíferos”, ressalta a bióloga.

 

 

O que fazer em caso de acidente

Os escorpiões possuem hábito noturno, quando costumam deixar seus esconderijos para procurar alimento. A especialista do Biotério de Artrópodes explica que eles são capazes de se movimentar por até 40 metros em uma única noite, raramente retornando para o mesmo ponto de onde saíram.

Durante o dia, eles geralmente permanecem abrigados em ambientes escuros e minimamente umidificados, como frestas na parede, entulhos, tubulações, armários, sapatos e até roupas – principalmente aquelas que ficam penduradas atrás da porta ou espalhadas pelo chão.

A picada de escorpião é descrita como lancinante, provocando dor imediata e intensa. Em caso de acidente, as orientações são claras: lavar a região com água corrente e sabão neutro, aplicar compressa morna e buscar atendimento médico imediato – especialmente no caso das crianças, que podem evoluir para quadros graves em um curto intervalo de tempo.

No Brasil, o Instituto Butantan é responsável pela produção do chamado soro antiescorpiônico, indicado para o tratamento de envenenamento por escorpiões do gênero Tityus, e o soro antiaracnídico, que além dos escorpiões pode ser utilizado em casos de picada de aranhas do gênero Phoneutria (aranha-armadeira) ou Loxosceles (aranha-marrom).

Em 2024, quase 80 mil frascos do antiescorpiônico e mais de 20 mil ampolas do antiaracnídico foram entregues ao Ministério da Saúde, que é responsável por disponibilizar os produtos na rede pública de atendimento.

 

Tags: aumentoescorpiãoespécieshábitospicadaSão Paulosoro
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