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Home Colunistas

Por que temos medo de vacinas? – por Carmino de Souza

Carmino de Souza Por Carmino de Souza
23 de dezembro de 2024
em Colunistas
Tempo de leitura: 5 mins
A A
Estado de São Paulo emite alerta para Sarampo e recomenda vacinação

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo

Apesar da retratação oficial do estudo da Lancet de 1998 que sugeria uma conexão entre vacinas e autismo em 2010, um em cada quatro pais nos EUA ainda acredita que as vacinas podem causar autismo . Essa crença é frequentemente citada como parte da causa do aumento das taxas de “negação” às vacinas entre pais. Nos últimos anos, as taxas de negação às vacinas aumentaram, as taxas de vacinação de crianças pequenas diminuíram e surtos de doenças infecciosas resultantes entre crianças foram observados em muitos lugares inclusive em países desenvolvidos. Por exemplo, na Califórnia, a taxa de pais que negam a necessidade de vacinas aumentou de 0,5% em 1996 para 1,5% em 2007.

Entre 2008 e 2010, na Califórnia, o número de crianças do jardim de infância que frequentam escolas nas quais 20 ou mais crianças foram intencionalmente não vacinadas quase dobrou de 1937 em 2008 para 3675 em 2010 .

As taxas de vacinação também diminuíram em toda a Europa , resultando em surtos de sarampo e rubéola na França, Espanha, Itália, Alemanha, Suíça, Romênia, Bélgica, Dinamarca e Turquia. Esta é uma situação terrível e que deve ser um constante alerta a nós brasileiros que temos em nosso programa nacional de imunizações (PNI) como um de nossos orgulhos dentro do SUS. O surto há dez anos de cerca de 1000 casos de sarampo em Swansea, País de Gales no Reino Unido, modelo que seguimos e admiramos, é um exemplo chocante dos efeitos sérios da redução da vacina.

Há pouco mais de uma década antes deste surto, havia apenas um punhado de casos de sarampo na Inglaterra e no País de Gales, e a doença era considerada efetivamente “eliminada”. No entanto, após o estudo desacreditado em 1998, as taxas de vacinação contra o sarampo despencaram, com os níveis mais baixos ocorrendo em 2003-2004. Há evidências de que o surto pode ser em parte devido às respostas dos pais às reportagens da mídia.

Há evidências de que histórias de medo afetam o comportamento de saúde em geral quando, na realidade, aqueles que apregoam esse “perigo” representam, felizmente, uma minoria. É fácil ficar atolado em debates filosóficos e éticos sobre quem nessas situações tem o direito de tomar essas decisões. Os pais devem ter a liberdade de colocar seus filhos e outras crianças em risco de contrair doenças frequentemente fatais preveníveis por vacinas?

No entanto, uma pergunta mais imediata deveria ser: que tipos de comunicação de médicos e autoridades de saúde pública poderiam realisticamente amenizar as preocupações dos pais sobre os riscos associados à vacinação? Para dissuadir os pais de noções infundadas sobre os riscos associados às vacinas, é vital entender como a maioria das pessoas forma percepções de risco em primeiro lugar. Armados com uma melhor compreensão das percepções públicas de riscos associados à vacinação, médicos e autoridades de saúde pública devem elaborar estratégias de comunicação que visem especificamente a eliminação dessas crenças. Em outras palavras, deveríamos aplicar a teoria da percepção de risco ao desenvolvimento de estratégias de comunicação para incentivar a vacinação de crianças.

Em 1987, Paul Slovic publicou um artigo marcante na Science sobre como o público concebe e responde a vários fatores de risco. Slovic enfatizou que os leigos consistentemente entendem o risco de forma diferente dos especialistas. Os especialistas tendem a avaliar o risco usando medidas quantitativas , como as taxas de morbidade e mortalidade, por exemplo. No entanto, o público pode não entender o risco dessa forma.

Características qualitativas de risco, como riscos involuntários ou riscos que se originam de fontes desconhecidas ou não familiares, podem influenciar muito a avaliação de risco da pessoa média.

A teoria da percepção de risco pode ajudar muito a explicar por que alguns pais ainda insistem que as vacinas causam distúrbios como autismo diante de evidências abundantes do contrário. Pesquisas sobre percepção de risco indicam que as vacinas são excelentes candidatas para serem percebidas como de alto risco.

Existem várias características das vacinas que as alinham com características consideradas de alto risco pelas pessoas: riscos provocados pelo homem são muito mais assustadores do que riscos naturais; os riscos parecem mais ameaçadores se seus benefícios não forem imediatamente óbvios, e os benefícios das vacinas contra doenças como sarampo e caxumba não são imediatamente óbvios, uma vez que as doenças associadas a esses vírus — mas não os vírus em si — foram amplamente eliminadas pelas vacinas; e um risco imposto por outro órgão (o governo neste caso) parecerá mais arriscado do que um risco voluntário.

Pesquisas mostraram que a percepção de risco forma um componente central do comportamento de saúde. Isso significa que se os pais veem as vacinas como de alto risco, eles frequentemente se comportarão de acordo com essas crenças e escolherão não vacinar seus filhos.

Uma questão interessante e não frequentemente abordada sobre a ansiedade da vacina é o quão culturalmente vinculados esses medos são. Comparações transculturais podem nos ajudar a entender melhor todo o fenômeno. Incrível imaginar que eventos trágicos recentes demonstraram resistência a programas em países da África e Asia, estimulados pela crença de que as vacinas estavam sendo usadas para esterilizar crianças muçulmanas.

Em geral, no entanto, a resistência social às vacinas e o medo de vacinas causarem doenças como autismo são menos comuns em países como o Brasil, em parte porque a morte por doenças preveníveis por vacinas é mais visível e o desejo por vacinas é, portanto, mais imediato e aceito pela população. Há uma história de sucesso por trás de tudo isto. Há, no entanto, algumas evidências de que a confusão e o medo de novas vacinas, particularmente após a pandemia da Covid-19, incluíram dúvidas sobre sua eficácia também aqui em nosso país. No entanto, mesmo as perspectivas transculturais indicam que há algo fundamental sobre as vacinas que pode despertar medo de diversos tipos nas pessoas.

Embora o conteúdo desses medos possa ser diferente, eu diria que a causa fundamental do medo é a mesma: as vacinas, como substâncias artificiais e desconhecidas injetadas no corpo, são um candidato clássico para percepção de risco. Entender onde os medos persistentes da vacinação se originam é o primeiro passo para efetivamente abandoná-los.

Talvez lembrar as pessoas de outras invenções feitas pelo homem com benefícios cruciais ajudaria a amenizar os medos da vacina. Isolar os elementos precisos que constituem medos irracionais da vacinação é um componente vital para projetar campanhas eficazes de saúde pública para encorajar os pais a imunizar seus filhos contra doenças que podem ser devastadoras.

 

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022 e atual Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan. Diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e Pesquisador Responsável pelo CEPID-CancerThera-Fapesp.

Tags: Carmino de SouzaciênciacolunistascriançasHora CampinasimunizaçãomedicinamedopaíspesquisasaúdeVacina
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