O mundo está em guerra. O Ocidente todo, ou quase, apoiando a Ucrânia contra a Rússia, a segunda potência nuclear global e que sempre ameaça lançar mão de seu arsenal atômico. No Oriente Médio, o horror em Gaza se espalhando por outros países, agora pelo Líbano. E a emergência climática, com eventos extremos em todas as regiões do planeta, incluindo a seca histórica associada a ações criminosas alimentando a inédita escalada de incêndios no Brasil.
São múltiplos conflitos que se seguem à catástrofe sanitária da Covid-19, tornando cada vez mais incertos os destinos planetários. Neste panorama nada animador, uma pergunta pode vir à tona: tem sentido falar de arte quando tudo está explodindo? Eu diria que mais do que nunca é preciso falar de arte, das diferentes linguagens artísticas, no mínimo para ajudar a compreender esse período singular na trajetória da humanidade.
Esse debate é antigo. É uma redundância evidenciar a importância da arte para o refinamento das sensibilidades, para o deleite e provocação dos sentidos, para a pacificação da alma em momentos de tormenta. E como o atual momento é atormentado!
Pois a discussão é mais do que nunca atual. Justamente nessa hora tão dura, tão recheada de desespero, é preciso falar de arte. Porque nela podemos nos refugiar, transcender as limitações cotidianas, nos libertar das árduas e prosaicas lutas do dia a dia.
De modo especial, é fundamental que a arte seja cada vez mais inserida no bojo de uma educação socioambiental efetiva, essencial no cenário de urgência de enfrentamento das mudanças climáticas e outras tragédias ambientais que estão sendo aprofundadas em nível global, como as crises do plástico e dos agrotóxicos.
A Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) brasileira, regulamentada pelo Decreto 4281, de 25 de junho de 2002, é uma das mais avançadas do mundo. Entre seus princípios estão: o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade.
Em todos esses princípios, assim como em outros da PNEA, é evidente o papel da arte, da educação pela arte. Porque a arte tem como poucos domínios a perspectiva da transversalidade, da intersetorialidade e da pluralidade. Então, sim, mais do que nunca é importante falar sobre arte, considerando a relevância extrema da educação socioambiental nesta hora extrema do planeta e da humanidade.
Arte, em suas diversas faces e desdobramentos, é o que pode ser encontrado em uma exposição aberta no último dia 12 de setembro em Campinas. Fruto de projeto apoiado pelo Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC), “Gráfica-Mente” pode ser visitada até o dia 8 de novembro no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC).
Tendo Rafael Lobo como coordenador geral e curador, Isabel Brentani como coordenadora assistente, curadora e designer e Sérgio Niculitcheff como curador, a exposição reúne trabalhos de graduandos em Artes Visuais na Unicamp. O desenho representa o núcleo central do projeto, mas outros saberes e fazeres são igualmente contemplados. O resultado final é uma amostra plural e emocionante de algumas das principais inquietações atuais do humano, demasiado humano.
A identidade feminina, como essa identidade é construída, moldada, em um mundo em que a violência de gênero continua assustando e matando, é um pano de fundo para várias das artistas participantes. E chama a atenção como em várias obras essa identidade feminina está relacionada com a natureza, em uma associação que é chave para equacionar muitos dos conflitos acima citados. Porque a maioria desses conflitos e tragédias resulta da visão masculina de mundo, ainda dominante.
A corrida armamentista e a destruição ambiental são consequência direta de um antropocentrismo que acima de tudo é masculino e misógino. Um outro mundo possível e necessário, de maior preocupação com o equilíbrio e a proteção dos recursos naturais, será necessariamente marcado por uma visão feminina de processos e métodos.
A vinculação estreita da mulher com a essência da natureza está presente, por exemplo, na produção de Manuela Camargo, como nas séries “Transborda” e “Verter”. Flores que nascem, crescem, desabrocham e se espraiam a partir do corpo da mulher, em uma manifestação clara da simbiose necessária do ser humano com a natureza. E não mais a sobreposição da cultura sobre a natura.
Essa mesma ligação de mulher e natureza, como uma das bases da identidade feminina, dá o tom em obras de Gabriela Gomes, como em “Abrigo”, como ela intitulou o desenho (a lápis grafite e tinta guache) de uma figura feminina sob a proteção das raízes de uma árvore. Abordagem semelhante a artista emprega em “Florescência” e “Aterrada”.
Elementos da natureza estão igualmente presentes em obras de Isabelle Germano, como em “Jabuticabeira” e “Mangueira”. A artista evidencia objetos e cenas recorrentes em sua memória, outro ingrediente fundamental para a construção de identidade, em uma sociedade que cada vez mais valoriza o presente, o instantâneo, e tenta literalmente deletar o que já passou, as marcas de uma trajetória.
Em “Tiuria”, Isabelle desenha objetos como um pente, um par de óculos, uma bolsa, ingredientes que certamente marcam o seu percurso pela Terra. Uma Terra que é conhecida e mais amada ao caminhar, com as sandálias e outros calçados que pinta em “Tô na rua I”. Caminhar para viver, fórmula sadia contra o sedentarismo forçado imposto pelas telas de computador e dos smartphones.
Mais elementos da natureza, e no caso pássaros, muitos pássaros, dão a tônica de obras de Luan M. da Silva, como em “Recorte: Bem-te-vi”, “Recorte: Sabiá” e “Joões-de-barro”. Já em obras de Pedro Seebregts, como “Cartas do Oblivio”, estão também presentes referências a animais, em diálogos instigantes com figuras humanas. Sempre remetendo a memórias, a retratos que se acumulam no inconsciente e ajudam a forjar a identidade humana.
A memória é, do mesmo modo, o material nobre nas obras de Laura Fernandes. Como destaca o catálogo da exposição, nascida e radicada na periferia de Campinas, a artista utiliza uma diversidade de meios para reverenciar os ingredientes da memória que fazem a sua história e a dos seus. São fotografias como em “Miosótis” ou cartas como as “Memórias em azul”. “eu tinha medo do escuro e esperava”, diz uma das cartas, expressão de sentimento tão humano quanto poético.
Produções de Amanda Lima, Isa Pita e Thayná Tinarelli são outros destaques de “Gráfica-Mente”. As artistas apresentam obras que refletem a busca permanente do humano por sentido, beleza e transcendência.
A psique é objeto para obras de Amanda, como na série “Inconsistências da memória”. O emocional e o psicológico são também matéria-prima para Isa, como em obras da série “Nascimento”. E o transbordar das mulheres, de novo a identidade feminina, está em produções de Thayná, como na série “As meninas”.
Mas quem for ao MACC visitar essa exposição será também presenteado com a contemplação de obras do rico acervo do Museu construído em grande parte desde projetos históricos como os Salões de Arte Contemporânea, pertencentes a um momento em que Campinas era especialmente ousada no campo das artes. De algum modo, as obras do acervo fazem um diálogo interessante com a essência de “Gráfica-Mente”. É o caso de um quadro sem título de León Ferrari, composto por centenas de mesas enfileiradas, uma ao lado da outra, com uma pessoa em cada.
Um retrato perfeito da cruel solidão que caracteriza a sociedade de massas. A mesma sociedade que produziu o aquecimento global, as guerras e tantas outras formas de violência e que somente será humanizada com mais arte, mais educação, mais ciência e esperança.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







