Pensado como um dos principais impulsos ao turismo ferroviário de Campinas, o projeto de extensão da histórica Maria Fumaça até a Praça Arautos da Paz nasceu cercado de expectativa e simbolismo. A proposta prometia aproximar ainda mais o trem turístico da população e integrar um dos cartões-postais da cidade ao trajeto histórico.
Anos depois, porém, a iniciativa que já mobilizou recursos, obras parciais e diferentes gestões públicas segue sem sair do papel — e agora, mais do que nunca, cercada de dúvidas sobre seu futuro.
A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) afirma que o projeto continua em discussão e passa por reavaliação de formato, viabilidade operacional e investimentos, com estudo técnico já contratado (veja abaixo).
Já a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que opera o trem turístico, traz uma visão mais crítica: em entrevista, o diretor administrativo Hélio Gazetta foi direto ao afirmar que a proposta original “morreu” e não deve mais avançar nos moldes concebidos.
O projeto de extensão da Maria Fumaça começou a ganhar forma ainda nos anos 2000 e foi tratado como prioridade durante a gestão do então prefeito Hélio de Oliveira Santos.

Sem avanços
A ideia era ampliar em cerca de 2 quilômetros o trajeto atual, ligando a Estação Anhumas até a região da Lagoa do Taquaral, com chegada na Praça Arautos da Paz. O plano incluía uma estrutura complexa, com trecho elevado de aproximadamente 480 metros sobre o Ribeirão Anhumas, além da construção de uma estação temática voltada ao turismo.
Com o passar dos anos, os valores também evoluíram. Inicialmente estimado em cerca de R$ 3,3 milhões — com participação da Petrobras, do Ministério do Turismo e da Prefeitura — o custo foi posteriormente atualizado para cerca de R$ 5 milhões.
Parte da obra chegou a ser iniciada, com a construção de pilares de concreto e a produção de aproximadamente 40 longarinas metálicas. No entanto, falhas técnicas, revisões de projeto e interrupções contratuais impediram a continuidade.
Abandonadas, as estruturas se deterioraram ao longo dos anos e acabaram sendo descartadas, evidenciando o desperdício de recursos e a falta de continuidade administrativa.

Projeto segue em análise, diz Emdec
Em julho de 2023, Emdec e ABPF Campinas se reuniram para uma nova análise sobre o projeto sobre os trilhos. Chegou-se a divulgar na ocasião, que um cronograma para possibilitar a contratação de um projeto básico executivo para a abertura de licitação.
Dois anos depois, a Emdec informou ao Hora Campinas que o projeto de extensão da Maria Fumaça “segue em discussão” e passa por reavaliação completa, incluindo ‘formato, viabilidade operacional e investimentos necessários”.

A empresa confirmou que houve a contratação de um estudo de viabilidade da extensão, mas não deu detalhes se de fato há viabilidade.
‘Os próximos passos, quando definidos, serão divulgados pela Emdec”, finaliza a nota.
A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária afirma que, na prática, o projeto não avançou e perdeu força ao longo dos anos. Em entrevista, o diretor administrativo Hélio Gazetta destacou que o modelo inicialmente proposto, especialmente com a estrutura elevada, não deve mais sair do papel.
“O negócio morreu. Literalmente morreu”, afirmou Gazetta, categórico.
Segundo ele, o crescimento urbano no entorno da Estação Anhumas e o aumento de reclamações de moradores, principalmente relacionadas ao ruído da locomotiva, tornaram o projeto ainda mais difícil de ser viabilizado.

Gazetta também mencionou que alternativas chegaram a ser discutidas, como uma solução mais leve ou integração com outros modais, mas nenhuma evoluiu.
Linha do tempo da extensão da Maria Fumaça
2007
• Projeto passa a ser tratado como estratégico para o turismo de Campinas.
2011 (previsão inicial)
• Entrega era esperada ainda na gestão de Hélio de Oliveira Santos, mas não ocorre.
2014
• Projeto é reformulado para atender exigências técnicas e garantir recursos federais.
Julho de 2015
• Prefeitura anuncia retomada com custo estimado em R$ 5 milhões.
• Recursos incluem verba do Ministério do Turismo e fundo municipal.
• Estruturas já executadas apresentam deterioração.
• Projeto entra novamente em fase de contratação.
2015–2022
• Sem avanço prático. Estruturas permanecem abandonadas.
10 de julho de 2023
• Reunião entre Emdec e ABPF retoma discussão.
• Gestão Dário Saadi sinaliza interesse.
• Prazo até agosto de 2023 para organização de documentos visando licitação.
2023–2026 (atual cenário)
• Projeto não avança para licitação.
• Emdec fala em reavaliação e estudos.
• ABPF aponta abandono da proposta original.
• Estruturas antigas foram descartadas.
Sobre a Maria Fumaça
Operada pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, a Maria Fumaça é um dos principais atrativos turísticos ferroviários da região. O passeio parte da Estação Anhumas, em Campinas, com destino a Jaguariúna, percorrendo um trajeto que resgata a história das antigas ferrovias paulistas.
Ao longo do percurso, os visitantes passam por áreas rurais, antigas estações e trechos históricos da malha ferroviária, em uma experiência que combina turismo, cultura e memória. O passeio é realizado em locomotivas a vapor e vagões restaurados, mantendo características originais da época.
A atração movimenta milhares de turistas todos os anos e é considerada um dos principais roteiros turísticos do interior paulista, com forte apelo histórico e cultural. A possível ampliação do trajeto até a Praça Arautos da Paz era vista como uma oportunidade de ampliar ainda mais esse fluxo, aproximando o passeio de uma das regiões mais frequentadas da cidade.






