Neste Dia das Professoras e dos Professores me deu uma senhora saudade da minha mãe e de todas as mestras de minha vida, que não foram poucas e que fizeram muito do que sou. E claro que me remeti imediatamente ao local onde as conheci e saboreei de seus afetos, o Grupo Escolar Minas Gerais que, mais uma grande sorte minha, ficava a poucos metros de minha casa. Em frente à pracinha onde os circos e parques eram montados, onde as fogueiras de São João eram erguidas, enfim, um desses lugares mágicos que todos deveriam ter na sua mente e no seu coração.
Porque é disso que se trata. O aprendizado, a educação, acontecem quando ocorre essa química, essa equação perfeita entre mente e coração, cérebro e alma. Se você aprende com grande dose de amor, de carinho, envolvido, você não esquece.
Então não vou me esquecer nunca das escadas e das salas de aula do Grupo Escolar Minas Gerais que, não por acaso, hoje leva o nome de Escola José Soares de Araújo, o nome de meu avô materno, de onde vem toda a vocação e atenção da família para a educação, ou para as diferentes linguagens educacionais que constroem um ser humano integral e um cidadão pleno.
De fato, para mim e minha família o Grupo Minas Gerais, 93 aninhos de fundação no último dia 30 de setembro, é particularmente fundamental, é raiz, é alma. A minha mãe, a Dona Dora, Dorinha, de quem muitos se lembram com ternura porque ela era toda ternura, foi professora no Grupo. E a tia Cida, minha madrinha do coração, e a Tia Lurdes, minha professora do terceiro ano, quando eu e o Leonardo Lima, com quem dividia a carteira, tiramos dez em todas as matérias no final do semestre.
Uma das fotos mais marcantes de minha vida é a da minha mãe e minha Tia Cida com outras professoras em uma das escadas do Minas Gerais. Uma escada que eleva e leva para o topo do aprendizado e da esperança.
A carreira de professora era inevitável para minha mãe e minhas tias. Eram elas filhas de um dos maiores nomes da história da Educação em Itamogi, o José Soares de Araújo, o avô Juca, que eu nem conheci de fato, ele que faleceu quando eu era quase um bebê. O meu avô tinha criado e dirigido uma Escola de Comércio que foi determinante na vida de tantos filhos de Itamogi, a minha terra querida, meu doce pedaço de Minas Gerais.
Claro que não conheci a Escola de Comércio, mas sinto que foi uma utopia encerrada, ao que eu saiba, pelas divergências políticas que infelizmente deixaram e ainda deixam graves feridas na minha linda cidade. Tivesse continuado, quem sabe a Escola de Comércio não teria sido uma Faculdade até hoje…
Mas tudo bem, as sementes lançadas na Escola de Comércio germinaram, tanto é que foi com enorme orgulho quando eu e minha família soubemos que o Grupo Minas Gerais passaria a ter, como Escola Estadual, o nome de meu avô. Um justíssimo reconhecimento, uma confirmação de que acreditar na Educação sempre valerá à pena, só ela nos garante a felicidade e realização plenas.
Pois a minha sorte continuou e em minha carreira de jornalista e escritor tive a oportunidade de visitar e conhecer a fundo muitas, centenas de escolas, pelo Brasil afora e fora dele, incluindo algumas na Europa e uma pequenininha, com cinco alunos, no interiorzão da Argentina. E lá como aqui aquele brilho no olhar, aquela sede de vida que as professoras carregam e distribuem.
Na periferia de Campinas, na casa simples transformada em escola colorida no sertão de Pernambuco, nas quadras com muita arte e diversidade na região metropolitana de Belo Horizonte, nas vibrantes escolas rurais de Bragança Paulista, em todos esses e outros lugares eu vi o compromisso, a responsabilidade, naqueles olhos de todas as cores e abraços.
As professoras constroem o Brasil, sempre construíram, e por causa delas ainda é possível crer. Calma, também os professores, que também tive vários e igualmente a quem devo demais. Mas são principalmente as professoras de lá, daqui, do Norte, do Sul, de todos os cantos do país que estão na base, no chamado chão da escola, com gosto de terra, alegria e construção de projetos de vida.
Elas estão firmes, apesar de tantos dados mostrando a distância que existe entre o ideal e o real para que professoras e professores exerçam com as melhores condições possíveis as suas profissões. Alguns desses dados estão por exemplo no balanço que a Campanha Nacional pelo Direito à Educação fez do Plano Nacional de Educação (PNE) 2015-2024. O Plano que portanto termina neste ano, com muito ainda a construir.

A Meta 16 do atual Plano estabelecia a formação, “em nível de pós-graduação, 50% (cinquenta por cento) dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todos (as) os (as) profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino”. Segundo o balanço, em 2023 eram 48,1% dos professores da educação básica com pós-graduação, contra 31,14% em 2014.
Já a Meta 17 previa “valorizar os (as) profissionais do magistério das redes públicas de educação básica de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos (as) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigência deste PNE”.
Segundo o mesmo balanço, em 2023 era de 86,0% a porcentagem entre os docentes das redes públicas com ensino superior completo, em relação ao rendimento dos demais profissionais com a mesma escolaridade. O balanço mostrou que o percentual é maior nos estados do Nordeste e do Centro-Oeste em relação aos ricos estados do Sudeste.
A Meta 18 do PNE 2025-2024 estipulava que fosse assegurada, no prazo de 2 (dois) anos, portanto até 2016, a “existência de planos de Carreira para os(as) profissionais da educação básica e superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de Carreira dos(as) profissionais da educação básica pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal, nos termos do inciso VIII do art. 206 da Constituição Federal”. Claro que em 2016 a meta ainda não tinha sido cumprida. Em 2023, somente 48,1% dos estados e 22,5% dos municípios brasileiros cumpriam todos os requisitos previstos na Meta 18.
E o que falar da Meta 19, que previa “assegurar condições, no prazo de 2 (dois) anos, para a efetivação da gestão democrática da educação, associada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à consulta pública à comunidade escolar, no âmbito das escolas públicas, prevendo recursos e apoio técnico da União para tanto”. Em 2016, de novo, a meta não tinha sido cumprida. Em 2023, 10,5% das escolas públicas selecionavam diretores por meio de processo seletivo qualificado e eleição com participação da comunidade escolar.
Muitos outros números poderiam ser citados, estes são suficientes para confirmar algumas das grandes lacunas no sistema educacional brasileiro, em particular em termos das condições de trabalho de professoras e professores. Lembrando que, infelizmente, passou a ser mais um desafio o de verdadeiros ataques terroristas em escolas brasileiras.
No século 21, conforme estudo da mesma Campanha Nacional pelo Direito à Educação, foram registrados 16 ataques a escolas no Brasil, quatro deles no segundo semestre de 2022, resultando em 35 vítimas fatais e 72 feridos. A maioria das vítimas foi de alunos, mas também educadoras e educadores foram atingidos.
Um cenário de fato de gigantescos desafios, que o Plano Nacional de Educação que entra em vigor em 2025, para valer até 2034, seja mais ousado ainda, como já foi falado neste espaço, e que considere em especial a realidade das professoras e dos professores desse país. Tudo isso para repetir, que saudade da professorinha, que me ensinou o be a bá das letras e da vida, gratidão eterna!
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







