A linha que separa a pré-História da História não foi traçada por armas ou guerras, mas pela linguagem. Os primeiros desenhos rupestres, ainda que rudimentares, já indicavam uma capacidade humana singular: representar o mundo por símbolos. Mais adiante, com o surgimento da escrita, a humanidade deu início à construção formal da memória coletiva, lançando as bases de tudo o que hoje chamamos de civilização.
A escrita não apenas permitiu o registro das experiências humanas, mas também se tornou o motor das grandes transformações científicas, filosóficas e culturais. Ela, sim, é a mais potente tecnologia que a humanidade já criou: uma forma de fazer o tempo conversar com o presente e de possibilitar avanços em todas as áreas do saber. Sem ela, a ciência, a história e até os afetos se perderiam.
No plano individual, o neurodesenvolvimento humano também depende da leitura e da escrita. Um século atrás, Alexander Luria já demonstrava que as funções cerebrais superiores – como atenção, memória e pensamento abstrato – são profundamente influenciadas pela prática da leitura. Ler não é só decodificar sinais: é ativar circuitos cerebrais complexos que organizam e reorganizam a mente em permanente crescimento.
Essa reorganização é justamente o que permite o pensamento complexo, como ensina Lev Vygotsky. Para ele, a linguagem – sobretudo a linguagem interior, construída por meio da leitura – é o alicerce do pensamento. Ler forma conceitos, amplia vocabulário, organiza ideias, possibilita abstrações e permite que o sujeito compreenda a si mesmo e o mundo de modo mais profundo e crítico.
No entanto, essa capacidade parece estar se perdendo. Pesquisas apontam que jovens leem cada vez menos. A queda não é só estatística; ela é cognitiva. A redução do contato com textos densos, narrativas longas e argumentos bem articulados gera um empobrecimento na capacidade de interpretar, produzir e compreender ideias. Atrofia-se, assim, uma das mais importantes habilidades humanas: o uso pleno da linguagem.
Na contramão do desenvolvimento, muitos jovens, sugados pelas infovias, têm substituído a leitura por memes, vídeos curtos e mensagens instantâneas limitadas a gírias e emoticons.
Esses recursos, embora válidos para certos contextos, não são suficientes para sustentar uma comunicação profunda. O que se vê é um empobrecimento generalizado da linguagem e, com ele, do próprio pensamento.
Adicione-se a isso o uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial – como o ChatGPT – para resumir, produzir e interpretar textos por crianças e adolescentes. Embora úteis quando usados de forma pontual, essas tecnologias, ao serem utilizadas como muletas ou atalhos enganosos, comprometem o desenvolvimento intelectual e cognitivo dos jovens, reduzindo a capacidade de ler criticamente, construir argumentos e refletir com autonomia.
O cérebro humano não nasce pronto. Ele se forma no esforço, no desafio, na experiência. Atalhos tecnológicos não apenas interrompem esse processo; muitas vezes, o distorcem. O uso excessivo de tecnologias que dispensam o esforço de ler e pensar gera um pensamento superficial, automatizado, padronizado, incapaz de questionar, de duvidar, de criar.
A plasticidade cerebral, aliás, nos mostra que a leitura vai além de um modelo visual convencional. Pessoas com deficiência visual, por exemplo, desenvolvem habilidades cognitivas e intelectuais complexas por meio de outras formas de leitura, como o sistema Braille. O cérebro, em sua capacidade adaptativa, reorganiza funções sensoriais e motoras para garantir o acesso à linguagem e ao pensamento simbólico, reforçando que o essencial na leitura não é o modo pelo qual ela se realiza, mas o exercício contínuo de significar o mundo, construir narrativas e elaborar pensamentos.

A leitura estimula a imaginação, porque obriga o leitor a construir imagens mentais, a preencher vazios, a fantasiar. Com a avalanche de imagens hiper-realistas produzidas por inteligência artificial, o exercício da imaginação está sendo substituído por deepfakes e modinhas promovidas para gerar engajamento monetizado e capturar dados de usuários. Sonhar com o que se lê é bem diferente de apenas consumir o que já está pronto.
Há também consequências emocionais. A leitura não é apenas cognitiva: é uma experiência subjetiva que contribui para o autoconhecimento e a empatia. Pessoas que não leem tendem a ter mais dificuldade para se expressar, compreender os próprios sentimentos e dialogar com o outro. Isso pode agravar condições como ansiedade, depressão e sensação de vazio existencial.
Outro aspecto crítico é a atenção. A leitura exige disciplina, foco e esforço. Trocar livros por telas repletas de distrações – notificações, vídeos curtos, publicidade invasiva – perturba o equilíbrio entre esforço e recompensa. Com isso, habilidades como concentração, paciência e perseverança ficam comprometidas, o que tem impactos diretos no aprendizado e na saúde mental.
A terceirização de funções cognitivas, como ler, escrever e interpretar, é um risco que não vale a recompensa. Ao entregar essas tarefas às máquinas, perdemos autonomia intelectual e subjetiva. Abrimos mão da nossa capacidade de pensar por conta própria, tornando-nos mais suscetíveis às padronizações impostas pelos algoritmos. O preço é alto: empobrecimento da linguagem, perda da identidade e conformismo social.
Diante de algoritmos que moldam gostos, encurtam frases e padronizam pensamentos, ler com profundidade é um ato de rebeldia.
Cada página enfrentada com atenção e espírito crítico é uma recusa à pressa, uma resistência à alienação e um voto de confiança na potência criativa da mente humana, antídoto contra a desinformação, a manipulação e o conformismo. Uma prática que nos ensina a refletir antes de compartilhar, a questionar antes de repetir, a imaginar para além do visível.
Enquanto as telas nos treinam para consumir, os livros nos convidam a pensar. Essa leitura é lugar simbólico onde se luta, silenciosamente, pelo direito de ser mais do que um dado, um clique ou um número no fluxo impessoal da era digital.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia.







