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Home Cidade e Região

Sapataria Bitar fecha as portas após 72 anos: ofício de sapateiro se perde no tempo

Abdala Bitar dedicou 82 de seus 96 anos à profissão que hoje vê acabar por falta de interessados

Laine Turati Por Laine Turati
16 de março de 2025
em Cidade e Região
Tempo de leitura: 3 mins
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Sapataria Bitar fecha as portas após 72 anos: ofício de sapateiro se perde no tempo

Abdala Bitar aprendeu o ofício de sapateiro aos 13 anos. Fotos: Laine Turati/Hora Campinas

Recostado na bancada, Abdala Bitar, prestes a completar 96 anos, observa o cliente se surpreender com a notícia de que o estabelecimento irá fechar. Os poucos produtos em promoção expostos não causam estranheza, já que o forte da Sapataria Bittar sempre foi o conserto de calçados e malas. E não são só as prateleiras que se esvaziam para sempre. O ofício de sapateiro também se perde no tempo. A loja vai baixar as portas por falta de mão de obra – que nem precisaria ser qualificada. Ali se vão 72 anos de história no bairro Castelo, em Campinas.

A Sapataria Bitar é uma das mais antigas de Campinas, se não a mais longeva. Seu Abdala tinha 13 anos quando iniciou no ofício de sapateiro, na cidade de Nuporanga, região de Ribeirão Preto. E 82 anos depois de ter ingressado na profissão, ele ainda lembra de seu mentor, Vicente Ambrósio, o homem que sabia tudo sobre calçados.

Postagem no Instagram sobre o fim das atividades

Quando a prática já estava dominada, oito anos depois, seu Abdala se mudou para Campinas, onde seguiu com o trabalho no Centro da cidade. Não foi difícil encontrar freguesia e decidir que essa era a cidade em que viveria para sempre.

“Eu abri uma sapataria perto do Timoteo Barreiro, mas quando foram alargar a Francisco Glicério, o imóvel foi demolido e eu me mudei aqui para o Castelo, de onde nunca mais saí”, recorda. A maior parte do tempo o comércio funcionou na rua Orando Carpino e mais recentemente se transferiu para a rua Pereira Tangerino, onde dividia espaço com uma agência de turismo pertencente à família.

Até quatro anos atrás, seu Abdala ainda ajudava nos consertos e no atendimento aos clientes, e nos últimos 15 anos, ganhou a valiosa ajuda do neto Anderson Lulu Bitar – um dos poucos que consideraram fazer do ofício de sapateiro uma ocupação principal.

Ele tocou a sapataria quando o avô sentiu o peso do trabalho e dos anos. Ampliou o comércio de produtos de couro, como carteiras e cintos, porém, sozinho não conseguiu atender à demanda principal de consertar calçados e malas.

Noeli trabalha nos últimos dias de atendimento da sapataria

 

Mão de obra

Noeli Seregatti, nora de seu Abdala, conta que os últimos anos foram especialmente difíceis. Não havia proposta de trabalho que encantasse os candidatos. Cerzir, costurar, colar e rejuvenescer sapatos rodados eram tarefas pouco atraentes aos olhos dos que respondiam às ofertas de emprego. Nem o salário inicial de R$ 4 mil, na média, colaborava com a missão.

“Consegui treinar e ensinar o ofício a alguns, mas eles logo desistiram. Quem ficou mais tempo com a gente e entendeu o valor dessa profissão, saiu e iniciou um negócio por conta. Os sapateiros estão acabando, ninguém mais quer realizar esse trabalho que sustentou minha família e me deu tantas alegrias”, lamenta seu Abdala.

“Chegamos até a oferecer trabalho para pessoas que pediam ajuda nos semáforos. Oferecíamos um bom salário, registro e estabilidade, mas nem assim tivemos sorte. Ouvi de alguns que eles ganhavam mais nos sinais, onde tinham possibilidade de ‘trabalhar’ quando quisessem”, recorda Noeli.

Abdala Bitar: ofício se perde no tempo

Essa é uma profissão desinteressante aos olhos dos mais jovens, crê Noeli. “A área de trabalhos manuais já não é mais atrativa. Sem contar que as pessoas compram calçados de qualidade inferior, descartáveis, nem compensa arrumar”.

Para quem passou 82 anos em uma sapataria, o motivo pelo qual ninguém mais se interessa pelo ofício é um mistério. “Veja só, os barbeiros ainda existem, as manicures também, mas quase não tem mais sapateiros!”

No dia 21 de abril, seu Abdala irá completar 96 anos, já sem o comércio com o qual formou família. Na loja, observa os últimos movimentos e tenta ajudar na revenda das máquinas de costura e equipamentos com os quais construiu uma história de vida. Sapateiro desde os 13 anos de idade, Abdala Bitar esvazia prateleiras e aquece as memórias de Campinas.

 

 

Tags: abdala bitarCampinasCastelofechamentoHistóriaofíciosapataria bitarsapateirotradição
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Laine Turati

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