Vivemos em uma época em que a imagem se tornou a principal moeda de valor subjetivo. Em vez de perguntar “como estou me sentindo?”, passamos a nos perguntar “como estou sendo visto?”. Nesse deslocamento, a saúde estética do corpo ganha um status ilusório de remédio universal. Pintamos o sintoma para esconder o sofrimento, cuidamos do invólucro tentando silenciar o grito do que pulsa por dentro.
A Psicanálise, especialmente a partir de Freud e Lacan, nos alerta para essa tentativa de “tamponar” o mal-estar com soluções externas e imagéticas, como se o sofrimento psíquico pudesse ser “maquiado” ou esculpido em uma cirurgia. É sobre isso que lhe convido, minha querida leitora, meu caro leitor, à refletir junto a mim, sobre a prioridade no tocante a saúde, dando prioridade aos cuidados do corpo em vês de priorizar os cuidados com a mente. Posso contar com sua companhia? Ótimo, então venha comigo, por favor.
É claro que cuidar do corpo é legítimo, mas quando esse cuidado passa a ser a única via de enfrentamento do sofrimento subjetivo, estamos diante de uma forma de autoengano. Nietzsche já dizia que o ser humano é o animal que mais mente para si mesmo. E essa mentira se apresenta, muitas vezes, como um culto ao corpo que mascara a dor da alma. A depressão, a ansiedade, os traumas infantis e os conflitos inconscientes não se resolvem com pele esticada, dentes alinhados ou músculos definidos. Ao contrário: quanto mais negligenciamos a escuta interna, mais o sintoma retorna, muitas vezes em formas mais perversas.
A busca pela autoestima através do espelho, e não através da escuta de si, é um modo de sabotar o processo real de autoconhecimento. O sujeito tenta “curar-se” com bisturis e cosméticos, enquanto o inconsciente continua operando seus movimentos silenciosos, pedindo atenção. A Filosofia existencialista, especialmente em Sartre e Kierkegaard, propõe que encarar a própria angústia é o primeiro passo para a liberdade. Já a Psicanálise entende que só há verdadeira transformação quando o sujeito se confronta com a verdade do seu desejo; o que exige tempo, silêncio, introspecção e coragem.
Negligenciar a saúde mental em nome de um corpo ideal é, portanto, uma forma moderna de recalque: empurramos para o porão da consciência tudo o que dói, esperando que um exterior bonito resolva o que é estruturalmente interno. Mas o corpo não sustenta por muito tempo o peso da alma adoecida. Assim, em vez de correr atrás de soluções instantâneas para a autoestima, talvez devêssemos aprender a habitar a própria história, a ouvir os vazios, a cuidar das feridas. Como disse Winnicott, “ser verdadeiro é a única coisa que cura”.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL) – Instagram @institutopontes_oficial







