O início de um novo ano nos convida, muitas vezes sem percebermos, a olhar para dentro de nós mesmos. É um momento de virada que não se limita a calendários, fogos de artifício ou promessas superficiais. Ele nos convida à introspecção, à observação silenciosa daquilo que carregamos, do que nos moldou e, principalmente, do que já não nos serve. Em certos momentos da vida, percebemos com clareza inquietante que não cabemos mais em determinados lugares: no trabalho, em relacionamentos, em círculos de amizade ou em ambientes que antes nos acolhiam. Essa percepção pode gerar desconforto, medo, até culpa, mas ela é, acima de tudo, um sinal profundo de crescimento.
A psicanálise nos ensina que a vida psíquica é composta de camadas que se transformam constantemente. O que antes parecia confortável e seguro pode, de repente, tornar-se limitador. Aquela carreira que antes trazia sentido começa a sufocar, o casamento que antes era fonte de apoio se torna terreno de frustração, as amizades que antes nos fortaleciam passam a gerar estagnação emocional. Reconhecer que não cabemos mais em certos lugares é reconhecer a própria subjetividade em expansão; é perceber que fomos moldados, mas que também somos agentes de mudança em nossas vidas.
Muitas vezes, permanecemos em lugares que não nos pertencem mais por medo do desconhecido. A estabilidade ilusória, o conforto da rotina e o temor de julgamentos nos mantém presos. Entretanto, é exatamente nesse espaço de desconforto que surge a oportunidade de transformação. O “não caber mais” não é uma falha ou uma inadequação; é um chamado. Um convite silencioso, porém insistente, para atravessarmos o que nos limita e buscarmos novos territórios onde nossa essência possa florescer.
É natural que essa consciência desperte sentimentos ambíguos. Podemos sentir tristeza pelo que deixamos para trás, raiva por termos perdido tempo, ou ansiedade diante do que ainda está por vir, mas a psicanálise nos mostra que esses sentimentos não são obstáculos; são indicadores de nossa própria vitalidade psíquica. Eles denunciam que nossa psique ainda deseja crescer, que ainda existe vida para ser vivida de forma mais autêntica. Cada sensação de inadequação é, na verdade, uma bússola interna apontando para possibilidades que não seriam percebidas se permanecêssemos conformados.
A virada do ano simboliza, então, mais do que um ciclo que se fecha e outro que se inicia. Ela representa a possibilidade de olhar para o próprio percurso, compreender onde nos encaixamos e, principalmente, onde deixamos de caber. E perceber que não cabemos mais não é um sinal de fracasso; é a prova de que evoluímos, de que nossa subjetividade se expandiu para além das fronteiras antigas. Nesse movimento, a introspecção torna-se essencial. Ela nos permite ouvir nossas próprias necessidades, entender nossos desejos ocultos e preparar o terreno para novas escolhas que estejam alinhadas com quem realmente somos.
Deixar de caber em certos lugares exige coragem. Exige reconhecer que a estagnação não é mais uma opção e que a vida exige movimento. A psicanálise oferece ferramentas para atravessar esses momentos com consciência, permitindo que o desapego não seja apenas uma fuga, mas uma transformação consciente e profunda. Cada decisão de se afastar de ambientes que já não nos nutrem é um passo em direção à autenticidade. É uma maneira de dizer, silenciosa e poderosa, que nos respeitamos o suficiente para não aceitar mais a limitação como destino.
Ao refletirmos sobre essa passagem de ano, é possível perceber que a vida não é apenas sobre encontrar lugares onde cabemos, mas sobre criar espaços onde possamos ser inteiros. É sobre nos permitir ser vastos, mesmo que isso signifique incomodar padrões antigos, expectativas alheias ou memórias confortáveis. O desconforto inicial é apenas o preço da expansão. Quando aprendemos a acolher nossa própria evolução, nos abrimos para experiências mais ricas, para relações mais genuínas e para uma vida que pulsa com significado.
Portanto, neste momento de introspecção, faça a si mesmo a pergunta que muitos evitam: em quais lugares você ainda se acomoda, mesmo sabendo que já não cabem mais? A resposta pode ser incômoda, mas ela carrega consigo a chave para sua liberdade. A vida é curta demais para permanecer confinada em espaços que limitam quem somos. E se você sente que chegou a hora de sair da estagnação e explorar a si mesmo de maneira mais profunda, permita-se buscar apoio. A psicanálise é uma ferramenta poderosa para compreender esses movimentos internos e transformar o desconforto em crescimento real.
Se esse chamado ressoa em você, não ignore. Questione, explore, permita-se expandir. Afinal, a pergunta que fica é: você vai continuar tentando caber onde já não é mais possível, ou vai se abrir para a liberdade que sempre esteve à sua espera? Cada virada de ano é uma oportunidade de recomeço. O lugar onde você deve estar não é aquele que segura seu corpo e sua rotina, mas aquele que permite que sua alma respire.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br







