O Setembro Amarelo surgiu como um movimento de conscientização para a prevenção ao suicídio, chamando a atenção para o sofrimento humano que muitas vezes se manifesta em silêncio. O suicídio não deve ser compreendido apenas como um ato isolado, mas como o ponto extremo de um processo psíquico marcado pela dor, pela solidão e pela sensação de desenraizamento. Para compreender esse fenômeno, é possível dialogar com o conceito de identidade líquida, elaborado por Zygmunt Bauman, que descreve a fragilidade das referências sociais e subjetivas na modernidade. A partir dessa introdução real com referência às emoções e ao mês de Setembro, posso contar com sua companhia nessa reflexão? Ótimo, então vamos à ela.
Na sociedade líquida, nada parece sólido ou duradouro. Relações, valores e pertencimentos tornam-se frágeis, instáveis e rapidamente descartáveis. Essa fluidez, longe de ser sinônimo de liberdade, converte-se em um fardo para o indivíduo, que se vê constantemente pressionado a reinventar-se, sem nunca se encontrar de fato. A identidade, que deveria oferecer algum eixo de consistência, passa a ser atravessada pela instabilidade e pela sensação permanente de insuficiência.
A psicanálise nos mostra que o eu se constitui sempre em relação ao outro, por meio do reconhecimento que se dá no campo simbólico. Quando o olhar do outro é volátil, superficial ou ausente, a estrutura do eu perde solidez. Na era da liquidez, esse olhar é frequentemente mediado por redes sociais e padrões de consumo, o que amplia a lógica da comparação e do ideal inalcançável. O sujeito sente-se constantemente inadequado, incapaz de corresponder às múltiplas exigências que a cultura lhe impõe.
Freud já apontava que toda cultura produz mal-estar, pois exige renúncias e limites. No entanto, na contemporaneidade, não se trata apenas de renunciar, mas de suportar uma avalanche de exigências: ser produtivo, belo, feliz, conectado e desejável, tudo ao mesmo tempo. Essa sobrecarga psíquica se manifesta em sintomas como ansiedade, depressão e sensação de vazio. Para a psicanálise, o sintoma é uma forma de expressão de conflitos inconscientes, mas quando não encontra espaço de elaboração, pode se transformar em passagem ao ato, sendo o suicídio uma de suas expressões mais extremas.
A liquidez da identidade dificulta a construção de narrativas estáveis sobre si mesmo. O sujeito fragmentado, sem uma história coerente, perde a capacidade de sustentar frustrações e de se reconhecer como desejante. As relações humanas, cada vez mais superficiais e descartáveis, intensificam a solidão. O chamado “amor líquido”, descrito por Bauman, exemplifica esse paradoxo: vínculos frágeis prometem acolhimento, mas frequentemente resultam em abandono. Nesse cenário, instala-se um vazio existencial que pode ser vivido como angústia sem nome.
O Setembro Amarelo nos convida a reconhecer esse vazio e a criar espaços de escuta e acolhimento. Mais do que estatísticas, é preciso dar lugar à singularidade de cada sujeito, sua história, seus fantasmas e seus desejos não simbolizados.
A clínica psicanalítica mostra que a fala, quando escutada, pode salvar vidas. A palavra oferece ao indivíduo a possibilidade de existir simbolicamente, ao passo que o silêncio absoluto pode levá-lo ao desfecho trágico. Portanto, é fundamental compreender o suicídio não como sinal de fraqueza, mas como um pedido desesperado de escuta.
Frente às pressões de uma sociedade líquida, torna-se urgente resgatar vínculos sólidos, relações autênticas e espaços de pertencimento. A psicanálise nos ensina que a identidade só se constitui na relação com o outro; por isso, o cuidado ético passa pela partilha, pela presença e pela oferta de escuta. O desafio contemporâneo é construir, contra a fluidez angustiante, laços de confiança e sentido que permitam ao sujeito reencontrar o desejo e a possibilidade de viver e para tanto eu, como psicanalista me coloco a disposição.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista







