Um dos grandes desafios na carreira de um jornalista é não deixar se “acostumar” com as tragédias, pois elas estão sempre acontecendo e por dever profissional temos que dar a notícia da melhor forma possível. Então o sentimento de “naturalização” de tragédias é um risco permanente, que é preciso superar.
Este final de ano tem sido uma coleção de tragédias no Brasil, uma atrás da outra. Acidente terrível com ônibus, depois outro com avião e uma queda de ponte, uma construção que deveria durar muito.
Mas este ano inteiro foi cheio de tragédias no país. As enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas por todo país, seca extrema em centenas de municípios e por aí vai.
O tempo atual, que os cientistas têm denominado de Antropoceno, em função dos grandes impactos das ações humanas, tem sido caracterizado por uma sequência de catástrofes. São sobretudo as mudanças climáticas, mas também há as questões geopolíticas, como a guerra na Ucrânia, o massacre absurdo em Gaza etc etc. O fantasma de uma guerra nuclear de volta, o que seria o fim da vida no planeta.
Neste cenário que para muitos é pré-apocalíptico, é difícil manter a esperança, a serenidade. Para um profissional que há décadas lida com a temática ambiental, aparece o dilema. Como realmente mostrar que há saídas, alternativas a seguir, se o panorama é tão grave?
As notícias e reportagens sobre as mudanças do clima são geralmente assim mesmo, com um tom catastrófico, e que com certeza assustam a muitos. E aqui reside um grande perigo. Se tudo parece perdido, adianta fazer alguma coisa?
Sim, adianta. E é um desafio enorme continuar insistindo que sim, que é possível sonhar com um novo mundo, uma nova sociedade, que hoje seria classificada de sustentável, em meio ao caos generalizado que está no ar.
A humanidade já passou por momentos terríveis na história. Peste bubônica, duas guerras mundiais e milhares de outros conflitos, pandemias, endemias, fome. De alguma forma, com o custo de muitas vidas, a vida prosseguiu. E ela deve ser sempre valorizada, exaltada e buscada.
A pandemia de Covid-19, uma catástrofe sanitária nunca vista pela rapidez com que se propagou em escala global, foi um desses eventos sobre os quais os livros de história ainda vão falar muito. Acho mesmo que seus efeitos, sua dimensão, ainda não foram devidamente compreendidos e “metabolizados” em toda a sua extensão. Foi grave demais, assustador demais.
As respostas que temos visto até o momento para todos esses megadesafios, como mudanças climáticas e ameaças epidêmicas e de novas guerras em larga escala, não têm sido suficientes para garantir um sono tranquilo. Mas é preciso insistir, continuar acreditando. Mesmo com tanta barreira pela frente, o negacionismo científico, a xenofobia, preconceitos de toda ordem.
O fundamental é continuar acreditando na humanidade, na capacidade do ser humano de surpreender positivamente, de apresentar novos caminhos, roteiros não imaginados. A começar pelo humano mais próximo, o amigo, a amiga.
Ninguém, absolutamente, sobrevive neste belo planeta sem uma rede de amigos e amigas de fato. É simplesmente maravilhoso saber que eles e elas estão dispostas a tudo para ajudar, a fazer o melhor, a fazer crer que é possível sim superar uma dificuldade momentânea, mesmo que pareça a mais grave possível.
Então acho que um caminho é este. Continuar amando e lutando pela vida, porque ela vale à pena pela rede de amigos e amigas construída ao longo da própria vida. Com base nessa força é possível prosseguir a jornada, mesmo com os dissabores que inevitavelmente podem acontecer.
Nesta altura, creio que não há nada mais sustentável, duradouro, que uma bela ou belas amizades. Já perceberam como alguns dos melhores livros, dos melhores filmes, são sobre amizades?
A teia que embasou a vida na Terra é pura amizade, relacionamento. Vamos, a partir das amizades que temos, continuar crendo que o rompimento da relação do humano com o universo, com a natureza, seja logo superado. A Terra é nossa amiga, simples assim. Vendo as amizades que cultivamos, que continuam nos surpreendendo, vamos reatar esse laço, essa bela conexão.
“Nenhum homem é uma ilha, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”, escreveu John Donne (1572-1631), poeta inglês, para mim neste que é um dos mais belos poemas já criados pela mente humana. E é mais lindo considerando a vida do próprio Donne, que conheceu muita amargura mas também muito amor e amizade, a alegria de pertencer a algo maior que si mesmo. Vamos estender esse sentimento para o outro irmão/irmã natureza, o irmão sol, irmão lua de São Francisco. Viva a amizade para que vivamos mais e melhor!
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com







