Nós comentamos com amigos e colegas que o Brasil poderia ter sido aquinhoado com prêmios Nobel em várias áreas do conhecimento, não apenas na saúde, e em vários momentos. Certamente, grandes figuras da saúde pública tais como Osvaldo Cruz, Vital Brazil, dentre outros poderiam ter sido laureados. Entretanto, uma figura maiúscula e que também foi injustiçado neste sentido foi Carlos Chagas.
Carlos Chagas descreveu em sua plenitude e em detalhes impressionantes uma doença que leva o seu nome: Doença de Chagas (DC). Ele conseguiu descrever todas as fases da doença desde seus aspectos epidemiológicos, a transmissão silvestre pela picada do inseto conhecido como barbeiro (triatomíneo) e todas as fases e ciclos de vida do parasita causador da doença (Trypanosoma cruzi). Descreveu ainda as complicações clínicas de curto e de longo prazo.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que temos cerca de seis a sete milhões de casos de DC através do mundo sendo a maior parte na América Latina. São estimadas 1.77 milhão de doenças cardíacas e cerca de 12000 mortes/ano devido a DC.
Na cidade de Campinas, gostaríamos de destacar o importante trabalho realizado pelo GEDOCH (Grupo de Estudos em Doença de Chagas) que a décadas presta ótimos serviços em nosso Hospital das Clínicas da Unicamp a pacientes portadores da DC.
A transmissão da DC pode ser feita por consumo de comida ou bebida contaminadas, passagem pela placenta durante a gravidez ou nascimento, transplantes de órgãos ou tecidos, e, raramente, por acidentes laboratoriais.
Entretanto, nos dias de hoje, a mais importante forma de transmissão já não é mais a silvestre, mas através do sangue ou produtos do sangue contaminados pelo T.cruzi.
A prevalência global em doadores de sangue nos Serviços de Hemoterapia é de 1.28%, dados estes também da OMS. Entretanto, estes números variam dependendo da população exposta. Tendo em vista o grande fluxo migratório através do mundo, países não endêmicos passaram a ter preocupação com a DC. Assim, nos EUA são mais de 17 milhões de imigrantes com DC, Canadá com 156 mil, Austrália, 80 mil, e Japão, 105 mil com % de infecção que varia de 2,1% nos EUA a 3,8% na Austrália. Estes países passaram a se preocupar com o tema e ajudaram na evolução tecnológica para o melhor diagnóstico e prevenção.
Um fato extremamente importante foi a dramática redução da prevalência de sorologia positiva em doadores brasileiros muito superior à média da América Latina. Para termos ideia a prevalência nos anos 70 era de 11% tendo atingido 0.18% nos anos de 2010.
Outro aspecto altamente relevante foi que nestas décadas 100% das amostras coletadas foram testadas em nosso país. Além disto, a evolução técnica foi marcante e os novos testes para triagem de doadores evoluiu para uma sensibilidade superior a 99% e especificidade superior a 95%. Este fato, fez com que os testes de triagem fossem cada vez mais confiáveis e as transmissões se aproximem de zero.
De nosso conhecimento, apenas 11 casos de DC transmitido pelo sangue e derivados ocorreu nos último 14 anos, isto é, menos de um caso/ano neste período em um universo de milhões de transfusões.
Dentre os produtos do sangue, as plaquetas apresentam o maior risco potencial de transmissão e pacientes imunossuprimidos, transplantados e poli transfundidos são aqueles de maior risco de contaminação. Apesar dos grandes avanços, ainda não temos vacinas para a DC. O controle do vetor bem como as triagens com o sangue coletado são os melhores meio de prevenção da transmissão. Além disto, é importante no acompanhamento pré-natal que sorologia especifica seja feita nas futuras mamães.
Boas práticas de higiene na preparação de alimentos, transporte, estocagem e consumo são fundamentais para evitarmos surtos como os que tivemos em anos anteriores no norte e sul do país nos consumos de açaí e “caldos da cana” (in natura).
Finalmente, temos pouco a dizer sobre o tratamento. Apenas dois fármacos são disponíveis (nifurtimox e benznidazole) ambos com significante efeitos adversos e baixa eficácia clínica. Muitas moléculas estão em testes e em fase de síntese, mas ainda não estão testadas e disponíveis.
Assim, fizemos este texto para lembrar desta incomum, mas ainda importante doença vetorial e potencial transmissão pelo sangue e derivados. A DC deve ser lembrada principalmente no Brasil e na América Latina tendo em vista a sua frequência e gravidade.
Carmino Antônio de Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994), da cidade de Campinas entre 2013 e 2020 e Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022. Atual presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan e Diretor Científico da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia.
Hélio Moraes De Souza é professor titular da Universidade Federal de Uberaba – MG, membro do Conselho Deliberativo e ex-diretor da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e ex-coordenador da coordenadoria de sangue e hemoderivados do Ministério da Saúde.












