Tenho testemunhado inúmeras pessoas sofrerem após serem mordidas por animais. Elas são trazidas aos serviços de saúde para receberem a vacinação contra a raiva. Como a doença é fatal assim que os sintomas aparecem, esses pacientes vêm para receber a vacinação pós-exposição contra a raiva.
Uma vez o vírus atingir o sistema nervoso, não há intervenção médica que possa impedir a morte. Globalmente, os cães são responsáveis por 96–99% de todos os casos de raiva em humanos. A transmissão pode ocorrer não apenas por mordidas, mas também por arranhões ou contato de membranas mucosas e pele lesionada com a saliva de mamíferos infectados. “Vacine-se — e incentive outras pessoas a se vacinarem — após uma possível exposição. A raiva é PREVENÍVEL”. A raiva é tão antiga ou até mais antiga que a lepra e a tuberculose, e hoje temos curas para ambas.
Isso me faz pensar: “Por que ainda não temos uma cura para a raiva?” Se o mundo conseguiu produzir uma vacina e opções de tratamento para a Covid-19 em tempo recorde, acredito que podemos e devemos tentar encontrar uma cura para a raiva. Esta é uma doença que afeta, predominantemente, as comunidades pobres e marginalizadas.
Chegará o momento em que poderemos parar de dizer: A raiva é 100% fatal. Podemos investir na busca por uma cura para a raiva? Devemos, se nos importamos de verdade. Para salvar pessoas da raiva, os cães precisam ser protegidos. A vacinação canina não só protege os cães, como também salva vidas humanas e de outros animais.
A comunidade global pretende eliminar a raiva transmitida por cães até 2030 por meio da estratégia de vacinar 70% dos cães. Eliminar a raiva de forma equitativa e eficiente requer essa abordagem de Saúde Única, isto é, cuidar conjuntamente da saúde humana e animal.
“Vacine seus animais de estimação e apoie a vacinação de cães que vivem soltos. A raiva — e o sofrimento que ela causa — pode ser ELIMINADA.”
Nem todos os cães que mordem estão com raiva. Cerca de 6% dos cães que mordem são suspeitos de estarem com raiva, e apenas cerca de 3% são prováveis ou confirmados. A melhoria da vigilância animal ajuda a evitar o abate desnecessário de animais e a vacinação desnecessária de humanos. É claro que observar cães domésticos por 10 a 14 dias após uma mordida é viável, mas monitorar cães que vagam livremente é um desafio.
Muitos desses cães chamados de “vadios” podem, na verdade, ser considerados “de propriedade da comunidade” e cuidados coletivamente. Se os alimentarmos de forma responsável (talvez possamos deixar a questão da propriedade de lado), em vez de deixá-los se alimentarem de lixo, podemos coexistir pacificamente.
Isso também tornará possível a vigilância desses cães. Cuidar não apenas dos nossos semelhantes, mas também dos animais e do nosso meio ambiente compartilhado é o verdadeiro espírito de UMA SÓ SAÚDE. Vamos cultivá-lo.
Há luz no fim do túnel. Não permitamos que as mortes continuem. Unamos esforços para eliminar a raiva de forma eficiente, justa e compassiva. Os cães não são nossos inimigos. Eles merecem cuidado e carinho. Vamos combater o vírus, não os animais. Aja agora – a prevenção e a eliminação da raiva exigem esforços conscientes de mim, de você e de toda a comunidade!
“Por um mundo livre do medo da raiva…
Por um mundo livre do sofrimento que a doença traz a todas as formas de vida!”
(Zinia T. Nujum)
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.







