Como todo mineiro, em particular os do Sul e Sudoeste do estado, tenho alma de café. Com leite, geralmente, mas sobretudo café. Ele está por toda a parte na minha Itamogi e na beira das estradas até chegar à cidade. Um marzão de cafezais, que às vezes sofrem com secas intensas ou geadas, mas continuam resistindo, impondo sua exuberância e compartilhando seus aromas. E movimentando a economia local, e produzindo cultura e arte.
Com esse legado no coração e mente vou degustar um cafezinho no próximo dia 13 de novembro, no Instituto Agronômico, no evento promovido pela Daterra Coffee, que vai prestar uma homenagem aos pesquisadores do café, na sede da organização mais do que centenária e a quem o Brasil deve tanto.
Se o país é o maior produtor e exportador mundial de café, somando cerca de 38% da produção global, grande parte dessa conquista se deve às pesquisas realizadas no Instituto. Se você já ficou com vontade de tomar um golinho, só de ler essas primeiras frases, saiba que 90% do café produzido em território brasileiro é resultado de cultivares desenvolvidos no Agronômico, que assim, com grande justiça, recebe a iniciativa da Daterra.
O IAC, como é conhecido e celebrado, se dedica a estudar e melhorar o café desde a sua fundação, a 27 de junho de 1887, como a Imperial Estação Agronômica de Campinas, seu primeiro nome. A instituição é resultado do empenho dos cafeicultores de Campinas e região, que almejavam justamente ampliar o conhecimento sobre a cultura que já fazia a riqueza regional e do país e que podia se desenvolver ainda mais.
De fato, desde o seu primeiro diretor, o químico austríaco Franz Dafert, o IAC se dedica a aprofundar pesquisas sobre as diferentes espécies de Coffea, o saboroso gênero da família das Rubiaceae. Se houve mudanças ou ajustes nas linhas de pesquisa conforme o perfil da gestão em cada momento histórico, o importante é que nunca o Agronômico deixou de estar atento para o estudo do café, em suas múltiplas facetas.
E são inúmeras, ao longo dos tempos, as ações do IAC em amplificar o aprendizado sobre o café, embora também se dedique muito ao estudo e desenvolvimento de outras culturas. A fisiologia do cafeeiro, os aspectos químicos ligados ao seu cultivo, é estudada desde o período de Dafert à frente da Imperial Estação Agronômica, depois Instituto Agronômico após a vitória do movimento republicano em 1889. República instaurada, aliás, com o forte protagonismo dos cafeicultores de Campinas
O desenvolvimento de cultivares, do mesmo modo, acompanha toda a trajetória da instituição. Como resultado dos cultivares pesquisados e lançados pelo Instituto, foi notável o ganho de produtividade dos cafezais, sendo igualmente cruciais para o combate à ferrugem e outras doenças que atacam o café e já provocaram o pânico entre produtores.
Em sua grande parte o trabalho dos pesquisadores do IAC se concentra nos cultivares de café arábica, que responde por mais de 70% da produção do país, mas também são importantes as pesquisas no café robusta, que aumentou a sua participação no mercado, por exemplo no Espírito Santo e em Rondônia.

Foto: Reprodução/IAC
O IAC tem acompanhado as evoluções científicas e tecnológicas e nas décadas recentes imprimiu pesquisas de ponta em café em áreas como cultura de tecidos, mecanização e biotecnologia. Foi o proponente, por exemplo, em parceria com o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café e a Embrapa, do Projeto Genoma – Café, dentro do Programa Agriculture and Enviromment Genomes (AEG) da Fapesp. Foram sequenciados ESTs (Expressed Sequence Tag) em tecidos e órgãos do cafeeiro, visando identificar problemas como susceptibilidade a pragas e doenças e resistência a seca ou geadas. Esse mapeamento tende a resultar em enormes ganhos para o desenvolvimento do setor cafeeiro no Brasil.
Sempre buscando ter uma visão de futuro, o Instituto Agronômico de Campinas está atento às urgentes demandas da sustentabilidade, como os impactos das mudanças climáticas na cultura do café.
Nesse campo, o IAC, em parceria com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), lançou na sede da Organização Internacional do Café (OIC), em Londres, o livro “Do grão à xícara: como a escolha do consumidor afeta o cafeicultor e o meio ambiente” e o DVD “Café Solidário”. Também foram parceiros o Consumers International (CI) e International Institute for Environment and Development (IIED). A sustentabilidade na produção do café, considerando os eixos econômico, social e ambiental, é portanto uma das vertentes atuais das pesquisas do IAC.
A tônica da sustentabilidade na produção do café é justamente a linha mestra de atuação da Daterra desde as suas origens, na década de 1980, mesmo quando o tema ainda não era popularizado no Brasil. Foi feito um importante investimento nas premissas da sustentabilidade nas fazendas da marca e os resultados foram colhidos. A fazenda em Patrocínio, no cerrado mineiro, foi a primeira do Brasil a ser certificada pela Rainforest Alliance e também a receber a ISO 14001. Depois vieram outras certificações, como a UTZ Kapeh e a IBD Organic.
Sustentabilidade implica em pesquisa e inovação contínuas, e essa tem sido uma preocupação constante da Daterra, que compartilha conhecimentos com pequenos produtores. É nesse sentido, de reconhecimento a tudo o que o Instituto Agronômico de Campinas significa para a pesquisa e o desenvolvimento do café no Brasil, que a Daterra Coffee promove o evento na histórica sede da instituição, na avenida Barão de Itapura, na próxima semana.
Haverá a degustação dos cafés da Daterra, apresentações por parte de alguns dos pesquisadores do IAC e a homenagem que a Daterra fará a profissionais que têm feito a diferença no estudo teórico e de campo sobre o café, esse grande e delicioso símbolo do Brasil. Durante o evento também acontecerá um leilão especial, de lotes exclusivos dos cafés Daterra, cuja renda será revertida em bolsas de estudo concedidas a três jovens pesquisadores para garantir o futuro da ciência do café no país.
O IAC abriu os caminhos para a pesquisa e desenvolvimento do café no Brasil e foi o precursor do ecossistema de ciência, tecnologia e inovação de Campinas, um dos principais da América Latina.
A cidade, a região, o país, devem muito a essa organização que, apesar de tudo, continua sofrendo com cortes em pesquisa e que merecia muito mais atenção do que recebe. O evento da Daterra é um tributo que deve ser replicado, em reconhecimento à ciência do café, um patrimônio verde-amarelo, verdadeiro presente para a humanidade e o planeta.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












