O Centro de Doenças Tromboembólicas (CDT), instalado no Laboratório de Hemostasia do Hemocentro da Unicamp, iniciou pesquisa epidemiológica inédita no Brasil sobre a trombose venosa – doença caracterizada pela formação de um trombo (coágulo) em um vaso sanguíneo que interrompe ou dificulta o fluxo normal do sangue venoso.
O CDT começou a fazer o registro epidemiológico da doença em três grupos de pacientes: adultos com trombose de braços ou pernas, pacientes adultos com câncer e crianças hospitalizadas. De acordo com a professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp Joyce Maria Annichino, coordenadora do CDT, o país não dispõe, hoje, de informações detalhadas sobre a prevalência da doença e suas complicações.
“Se você procurar dados brasileiros sobre a ocorrência de síndrome pós-trombótica nos pacientes com trombose na perna, não vai encontrar”, afirma. “Quantos dos pacientes que tiveram trombose tiveram um novo episódio no período de dois anos? Não temos esses dados. No Brasil, qual a porcentagem de pacientes com câncer que têm trombose? Ninguém sabe”, argumenta a professora. “Vamos, portanto, apresentar dados inéditos ao país, que vão poder auxiliar na tomada de decisão e dar sustentação para o estabelecimento de políticas públicas de saúde”, acrescentou Annichino.
A pesquisa, já em andamento, estabeleceu uma rede de pesquisadores, médicos e outros profissionais da saúde que atuam em 11 hospitais do SUS em seis cidades paulistas: Campinas, São Paulo, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Barretos e Botucatu.
Os dados demográficos e clínicos coletados são inseridos na plataforma REDCap (Captura de Dados Eletrônicos de Pesquisa, na sigla em inglês). Amostras de sangue são coletadas e armazenadas no Biobanco do Hemocentro da Unicamp.
A expectativa é construir um banco de dados com cinco mil casos de adultos com câncer, que serão acompanhados durante um ano, registrando a ocorrência de trombose ou óbito.
O segundo registro abrange pacientes com trombose venosa aguda nos braços ou pernas. A pesquisa vai acompanhá-los por dois anos, avaliando a ocorrência de síndrome pós-trombótica ou recorrência.
A terceira frente está relacionada a crianças que receberam um catéter venoso durante alguma hospitalização. Os pesquisadores avaliam a ocorrência de trombose venosa nessas intervenções e a evolução do quadro.
A inclusão de crianças já foi finalizada, com o diagnóstico de quase 250 tromboses em um total de mais de mil casos. Esses pacientes estão sendo acompanhados por seis meses após a alta hospitalar.
A pesquisa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e da Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp.
Conforme a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia (ISTH), cerca de 10 milhões de casos de trombose venosa são registrados no mundo a cada ano, uma incidência de 1 a 2 casos para cada mil indivíduos por ano. Destes, cerca de 100 mil casos resultam em morte.
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, nos seis primeiros meses de 2025, foram contabilizados mais de 36 mil novos diagnósticos, uma média de 200 internações por dia. De acordo com pesquisadora, isso fica abaixo do esperado para o país, o que pode ser parcialmente explicado por não se tratar de uma doença de notificação compulsória. Annichino reforça a necessidade de uma campanha maciça de divulgação sobre formas de prevenção (confira dicas abaixo).
A professora ressalta um grande acontecimento: a sanção da lei 15.448/2026, que passou três anos em tramitação e foi aprovada graças aos esforços do CDT e da Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia, da qual é presidente.
Por essa lei, todos os hospitais ou serviços de saúde que ofereçam internação terão 180 dias para criar uma comissão com programas permanentes de prevenção da trombose. Com isso, qualquer paciente que for hospitalizado passará por uma avaliação de risco de trombose que guiará a adoção de medidas profiláticas, como a utilização de medicamentos anticoagulantes. “Isso é um marco em nosso país, pois muitos casos de trombose poderão ser evitados”, celebra.
Há cerca de um ano, o CDT lançou a personagem Maria Clot, que desde então tem levado informações sobre a trombose à população, em especial as crianças. “A Maria Clot é o nosso elo com a população. A universidade tem um grande papel na geração de conhecimentos, mas esses precisam ser divulgados de uma forma clara e simples e, para isso, veio a personagem”, afirma Annichino. Maria Clot é uma repórter que leva conhecimentos científicos sobre a trombose para toda a população, através das redes sociais, de ações presenciais e de programas na Educa TV, emissora vinculada à prefeitura de Campinas.
Como prevenir a trombose
⇒ Pratique atividades físicas: Exercitar-se de três a quatro vezes por semana (praticando caminhadas e treinos de força, por exemplo) é fundamental.
⇒ Evite o sedentarismo: Levante-se e caminhe por alguns minutos a cada hora se trabalhar sentado. Em viagens longas (de avião ou carro), faça pausas para esticar as pernas, caminhar no corredor ou realizar movimentos com os tornozelos.
⇒ Mantenha-se hidratado: Beber bastante água ao longo do dia mantém o sangue mais fluido, dificultando a formação de coágulos.
⇒ Corte o tabagismo: O cigarro inflama os vasos sanguíneos, machuca a parede interna das veias e prejudica o fluxo do sangue.
⇒ Controle o peso: A obesidade aumenta a pressão nas veias das pernas e dificulta o retorno do sangue.
⇒ Atenção aos hormônios: Medicamentos como anticoncepcionais e terapias de reposição hormonal podem engrossar o sangue e aumentar o risco, exigindo sempre orientação médica.
⇒ Uso de meias de compressão: Podem ser recomendadas pelo médico para melhorar o retorno venoso, especialmente durante viagens longas ou períodos de repouso.
⇒ Profilaxia medicamentosa: Em situações de risco muito elevado, como internações hospitalares, cirurgias ou longos acamamentos, o uso de medicamentos anticoagulantes sob prescrição médica é vital.
Fonte: Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia (SBTH)
(Com informações da Unicamp)












