Dos trilhos do passado, para novos passageiros no futuro. Um vagão centenário da Companhia Paulista de Estradas de Ferro está prestes a receber novamente turistas no trajeto da Maria Fumaça, entre Jaguariúna e a Estação Tanquinho, em Campinas. Trata-se de um ícone ferroviário que divide primeira classe com um pequeno restaurante, cheio de detalhes que rementem o passageiro ao início do século passado.
A composição recebe os últimos detalhes de pintura e limpeza antes de ser colocada nos trilhos. Hélio Gazetta, diretor administrativo da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) – regional Campinas -, acredita que nas férias de julho o vagão já se apresente como a nova atração do trajeto.
Para preservar sua estrutura toda em madeira, o ‘carro’ centenário não chegará até a estação de Anhumas, ponto de partida do trajeto completo de 25 km até Jaguariúna.
Acomposição fará somente o trecho da Estação Tanquinho a Jaguariúna, em um percurso de aproximadamente 1h50 de duração.
“Como eram carros mais leves até por causa das locomotivas serem a vapor, então a gente não vai forçá-lo justamente para preservar. Vamos trabalhar com ele uma vez ao mês e em feriados, fazendo o percurso de 12 quilômetros”, explicou Gazetta.
O vagão já circulou entre 2006 e 2007, mas desde então ficou em manutenção na oficina da estação Carlos Gomes.
Veja fotos (por Gustavo Abdel)

História
Enquanto fazia os últimos contornos do logotipo da Companhia Paulista, na cor amarela original da época, Gazetta contou um pouco da história daquele vagão, desde os tempos em que fazia o trecho entre Olímpia e Nova Granada (ao Norte do estado de São Paulo), a partir da década de 1930, até chegar na estação Carlos Gomes, em Campinas, em 2006.
Segundo consta na documentação de Carlos Alberto Romitto de Carvalho (falecido) – um estudioso da Companhia Paulista e um dos principais memorialistas das ferrovias – esse vagão foi construído no início da década de 1920 na cidade de Rio Claro (SP), para ser utilizado na então Estrada de Ferro São Paulo – Goiás.
O vagão compunha com outros seis ou sete carros a locomotiva a vapor que fazia o trecho entre Olimpia e Nova Granada, passando pela estação de Altair.
No entanto, conforme relembra o diretor da ABPF, em 1966 concretizou-se o fim do trecho pela Companhia Paulista e a consequente desativação da estação de Nova Granada.
“E esses carros foram para outros ramais da bitola métrica (na qual a distância entre os trilhos é igual a um metro). Provavelmente, pelo que soubemos, vieram parar na estrada de ferro São Paulo-Minas Gerais, e operaram até a década de 1970. E posteriormente, com o fechamento dessas linhas pela Fepasa, muitos desses carros foram a leilão”, explica Gazetta.
Num desses leilões, o vagão foi arrematado e levado para um bonito sítio em Rio Claro, às margens da Rodovia Washington Luís. Certo dia, a família entrou em contato com a ABPF para saber se havia interesse em adquirir aquela peça histórica.
Hélio e outros dois associados de Campinas dividiram os custos e compraram o vagão.
Apesar de estar sem truque, bancos, e uma cobertura improvisada, a composição estava conservada. O valor que o primeiro dono arrematou no leilão não foi revelado pela família.
“De imediato trocamos bastante madeira pois estava com cupim. Fizemos a reposição gradual. Esse é um carro com chassis todo de madeira, pois na época era muito comum. Eles não eram feitos para trens muito longos”, explica.

Os detalhes
Entrar no vagão é voltar ao passado. Os detalhes de época estão todos conservados. O lustre, as placas indicativas, a geladeira do bar, os equipamentos da pequena cozinha, torneiras. Na primeira classe, as oito poltronas de couro darão 16 lugares aos visitantes.
Já no restaurante, são duas mesas com quatro lugares, e que segundo Gazetta serão servidos bebidas e petiscos quando entrar em operação.

“Esse era um vagão que recebia todas as classes sociais. Já nos vagões de primeira classe, por exemplo, era obrigatório o uso de ternos e não se podia tirar o sapato”, relembra.
Um dos detalhes curiosos do vagão – e presente em todas as composições da Companhia Paulista – é a presença de um mapa do estado de São Paulo, com destaque para as linhas ferroviárias.
Em junho a composição passará pelos primeiros testes e em julho deverá estar nos trilhos. Atualmente, cerca de 5 mil pessoas fazem o passeio de Maria Fumaça.

ABPF
A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) foi fundada em 1977 pelo francês Patrick Henri Ferdinand Dollinger, e desde então reúne interessados na preservação, resgate, restauro e divulgação da história da ferrovia brasileira.
Patrick chegou ao Brasil em 1966, no período de transição da tração a vapor para a diesel. Preocupado com o abandono da história ferroviária brasileira, ele resolveu criar uma entidade de preservação nos moldes das existentes na Europa e Estados Unidos.
Para contatar pessoas interessadas em realizar este sonho, publicou em fevereiro de 1977 um pequeno anúncio no jornal “O Estado de São Paulo”.
Apenas duas pessoas responderam ao anúncio, Sérgio José Romano e Juarez Spaletta. Os três passaram, então, a fazer contatos com pessoas de mesmo ideal, de forma que em 4 de setembro de 1977 foi possível realizar a assembleia de fundação da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária.
Hoje a ABPF é uma grande Associação (OSCIP), com aproximadamente 4.000 sócios, com regionais e núcleos espalhados por todo País, restaurando e operando trens turísticos em vários estados.











