Graciliano Ramos não se candidatou à Academia Brasileira de Letras, sendo considerado um dos expoentes literários que assim decidiram ficar de fora do rol de imortais. No momento, voltaram à tona seus famosos relatórios quando foi prefeito em Palmeira dos Índios-AL, disponíveis para consulta na internet e com edição em livro pela editora Record prefaciada pelo presidente Lula.
Graciliano Ramos já era jornalista no Rio de Janeiro antes de voltar às Alagoas e inaugurar sua carreira política. Talvez por isso seus relatórios tenham circulado na então capital do Brasil, causando surpresa pela descoberta, que antecedeu a carreira literária.
Em ano de eleições municipais, é importante verificar que falta mais literatura e menos ditadura aos prefeitos.
Já Ailton Krenak é o mais novo integrante da Academia. À parte da polêmica que foi sua eleição que envolvia outra candidatura indígena, foi muito boa sua coluna de estreia em jornal da capital paulista, fazendo o seu melhor: trazer a oralidade da memória para a escrita.
A referência que faz a outros colunistas de relevância é sua marca, pontuando os que compõem a base do pensamento das lutas sociais e políticas. Pena que será apenas uma vez por mês, talvez por decisão do próprio autor ou como teste para saber da aceitação. Que areje as páginas e os leitores de forma mais frequente, pois o jornalismo opinativo precisa.
Exemplo dessa falta de opinião aprofundada e balizada é a forma como são tratados dois autores polêmicos em diferentes tempos e locais. Monteiro Lobato era racista e Lima Barreto, misógino. Ambos, cada qual a seu jeito, tentaram – e não conseguiram – adentrar a Academia. A grita faz cancelar o primeiro e enaltecer o segundo, expondo a parte podre de um e escondendo a do outro.
Li e leio constantemente ambos, imergi no mundo imaginário de Lobato para daí seguir para a literatura mais densa, e continuo a decifrar inéditos de Lima Barreto em crônicas escondidas nas hemerotecas digitais. Ambos falam do Brasil que viram e que vivenciaram, e criar obstáculos para o completo entendimento – e deleite – de suas obras é pura preguiça intelectual. Não esconderemos suas naturezas, apenas coloquemo-las no devido tempo e espaço.
Por fim, uma comparação entre o velho e novo, entre Machado de Assis e Itamar Vieira Júnior. Um fala da terra, outro, de uma cidade e fundou a Academia; todos falam de um país. Se “Torto Arado”, de Itamar, não ganhou como melhor livro no International Booker Prize 2024, a ferramenta a ser usada agora para promover a literatura é um bom Machado, que viralizou no Tik-Tok, pela redescoberta da tradução de sua obra para o inglês.
Subvertendo os camonianos versos para a divulgação de nossa literatura, “publicando espalharemos por todo o norte, se a tanto nos ajudar o empenho e a sorte”.
Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro da Academia de Letras de Lorena, da Academia Campineira de Letras e Artes e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.












