“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”
Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”, 1967
Em 1972, Jacques Lacan, psicanalista e psiquiatra, também francês, conduzia um seminário na Universidade Católica da Lovaina, na Bélgica, quando um jovem presente na plateia se levantou e foi até Lacan. Então, começou a despejar água e farinha sobre a mesa com as anotações do francês e, quando os presentes foram ao socorro do palestrante, o jovem questionou: “Estou apenas me expressando, como este homem. Entende?”.
Os registros textuais que encontrei do evento tem um tom de exaltação à calma e à elegante indiferença com a qual Lacan lidou com o tumulto. De fato, é uma postura a se inspirar e compatível com a sua sabedoria, mas minha admiração foi mais para outro lado. Ainda que convidado a se retirar, o jovem revolucionário se manteve resistente e emplacou um breve discurso: “A composição que até cinquenta anos atrás podia ser chamada de ‘cultura’- isto é, pessoas expressando de forma fragmentada o que sentem – é agora uma mentira, e só pode ser chamado de “espetáculo”, cujo plano de fundo está atrelado a, e serve como, elo entre todas as atividades individuais alienadas”.
A água e a farinha despejadas não pareceram ter causado nenhum dano, então não considero um ato de violência, mas sim de disrupção.
Estavam todos envolvidos e provavelmente seguindo um fluxo mental monolítico: entram água, farinha e confronto, e de repente a percepção coletiva do momento se movimenta para a confusão, o que exige atenção a uma reinterpretação do ambiente. O jovem atingiu o seu primeiro objetivo.
O segundo era o de se fazer escutado – escutado de verdade. Este, eu acredito que tenha sido parcialmente atingido. Jacques Lacan ainda tinha e tem para si o espetáculo: apesar de ter permitido e acolhido a expressão do jovem, o eixo do ambiente foi pouco a pouco se recentralizando na admiração ao psicanalista francês. Entretanto, mais de cinquenta anos depois, aqui estou escutando. Isso ele conseguiu.
“Espetáculo servindo de elo para atividades individuais alienadas”, advertido em 1972, me soa como um certeiro presságio, infelizmente. Nossa sociedade do consumo se baseia em “espetáculos”: no contexto de hoje, interpreto como elementos que preenchem a superfície da nossa existência de maneira suficiente a criar imagens, para que nas imagens se edifique a nossa identidade. Pouco importa o que se é, mas sim o que se tem, ou melhor, o que se representa.
Ainda que distante do nível de consumo e tecnologias de conexão em massa existentes hoje, Guy Debord, em 1967, já inferia que “A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. (…) O espetáculo concentra todo olhar e toda consciência. (…) Ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência”. Bem atual, não? No contexto do jovem, fazer-se escutado na palestra era um enfrentamento ao exercício da palavra de Lacan, entendido por ele como parte dessa falsa consciência coletiva do espetáculo.
A ideia aqui não é realizar um juízo de valor; Jacques Lacan é e deve ser uma referência intelectual. Mas no foco de avaliação deste artigo, ele é só um humano.
Admiro a coragem do rapaz de se posicionar perante uma dura plateia, admiro a escolha das suas palavras no breve tempo conquistado, ainda que talvez ensaiadas, e admiro a sua capacidade de romper. “Romper”, neste caso, significa refletir e acreditar na própria reflexão, mesmo que em desconformidade com o óbvio, o fácil, ou o “espetáculo”. Vale uma ressalva aqui que o “romper” é diferente de perder contato com a realidade, como em um estado de delírio e sofrimento psíquico. Na verdade, na minha concepção, são estados diametralmente opostos.
Para o jovem ter arbitrariamente se colocado em uma situação de exposição e hostilidade, ele devia acreditar de verdade nas suas ideias. Para acreditar de verdade nas suas ideias, uma construção silenciosa foi necessária. Acontecido o episódio, creio que o jovem jamais se esqueceu do mesmo. Adiante na vida ele pode ter seguido outros caminhos e até encarado a sua ação com maus olhos, ou mudado sua visão de mundo, ou se alienado ao óbvio e fácil, ou qualquer outra infinidade de possibilidades. Entretanto, naquele momento a sua ânsia era intensa, e a sua ideia tinha nome e sobrenome. Minto; talvez não nome e sobrenome, mas corpo. Fato é que era significativa o suficiente para ele, que se apropriou dela e existiu em acordo consigo mesmo.
Ao longo da história as crenças e a consciência coletiva se alteraram vertiginosamente.
Muitos povos antigos viviam culturas animistas, tendo o curso de um rio, por exemplo, como uma importante referência espiritual, para além de instrumento de manutenção da vida. A psique e a consequente cosmovisão dos indivíduos que estavam inseridos nessa cultura só podem ser muito diferentes das dos indivíduos que não estão. O curso do rio Tietê tem significados muito diferentes para quem hoje vive no território da cidade de São Paulo. Analogamente, o jovem belga não quis aceitar as crenças da sociedade à sua época como incontestáveis, atemporais, ou as mais corretas.
Passados muitos anos, o ocorrido na Universidade Católica da Lovaina se apresenta como objeto de consumo, e a tendência é que o consumo por si crie algo fátuo, como um arquivo temporário na nossa consciência, cuja próxima direção depende da racionalização de cada um. Mas ali, em 1972, eram existências inteiras. Uma das existências acreditou mais na sua introspecção do que no “espetáculo”. E aí mora o grande desafio: ser. Refletir já é difícil, confiar nas próprias reflexões e ser a partir delas é mais difícil ainda. O garoto, se impertinente, não me importa, pois naquela peça o protagonista foi ele.
Gabriel Basso Pereira é engenheiro agrícola formado na Unicamp, analista de geotecnologia em empresa do agronegócio, e entusiasta da dúvida.












