Muitas pessoas ainda desconhecem aspectos fundamentais do saneamento básico: uma realidade preocupante que acompanha a minha jornada profissional nos últimos 30 anos com a missão de construir pontes de confiança e colaboração entre empresas de saneamento e a sociedade, do norte ao sul do país.
Mesmo com toda relevância para a saúde pública e o desenvolvimento social, é lamentável que a pauta não receba a devida atenção e não esteja presente na consciência coletiva. Afinal, é urgente que reconheçamos que somos parte de um sistema interligado em que, idealmente, políticas públicas eficazes, gestores públicos conscientes, empresas operadoras, tecnologias inovadoras e uma sociedade bem informada deveriam agir em sincronia.
Esse olhar integrado é importante para que entendamos que a ausência do saneamento básico impacta a todos (quem vive e quem não vive com esse elemento fundamental!), seja no âmbito da saúde pública, da economia ou do desenvolvimento das cidades, por exemplo – uma sociedade na qual as pessoas têm acesso à água potável e esgoto tratado confere, no dia a dia, dignidade e é o ponto de partida de uma base sólida para que possam ter esperança de um futuro sustentável.
Imagine que, enquanto você lê esse artigo, milhões de famílias não realizaram o simples ato de lavar as mãos, tomar banho, escovar os dentes ou usar o banheiro. Uma rotina garantida para alguns enquanto para outros é um privilégio distante.
Justamente por isso que é imprescindível que haja um esforço conjunto – desde a formulação de políticas públicas robustas e inclusivas até a conscientização da população sobre a importância de valorizar e exigir esses serviços.
Como pilar fundamental de uma sociedade próspera e saudável, o saneamento básico é também o elo com a sustentabilidade na vida de cada um de nós, que favorece a preservação ambiental e o desenvolvimento das cidades de forma consciente, contribui para a conservação dos recursos naturais, evitando a poluição de rios e lagos, fontes cruciais para o abastecimento e equilíbrio ambiental.
No entanto, essa realidade ainda está distante para milhões de pessoas ao redor do mundo, especialmente em regiões vulneráveis.
No Brasil, segundo o Instituto Trata Brasil, 32 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água de qualidade e metade da população carece de serviços de esgotamento sanitário – mais do que um número estarrecedor, é preciso reconhecer que cada uma dessas vidas tem o seu desenvolvimento e oportunidades negadas, antes mesmo de nascer.
São gerações e gerações sem a possibilidade de viver com acesso ao básico impactando a escolaridade, possibilidades profissionais e sua ascensão.
Lembro-me de uma entrevista do economista e filósofo Eduardo Gianetti sobre o impacto da falta de saneamento no desenvolvimento humano, especialmente no desenvolvimento cognitivo infantil em que estudos comprovam como a insalubridade afeta negativamente a nutrição, o bem-estar e o aprendizado.
Nesta oportunidade, Gianetti ressaltou que “quando crianças crescem em ambientes sem água potável e esgoto adequado, ficam expostas a doenças infecciosas recorrentes, como diarreias, que comprometem a absorção de nutrientes, resultando em subnutrição crônica”. Ou seja, um quadro devastador para o desenvolvimento cognitivo, que afeta o crescimento do cérebro, a energia e a concentração.
Quando falamos da relação entre saneamento e economia, um exemplo muito simples, é a redução dos gastos públicos com a saúde já que, ainda com dados do Trata Brasil, a cada R$ 1,00 investido em saneamento, economiza-se R$ 4,00 em saúde – e é notório que pessoas saudáveis tendem a faltar menos ao trabalho. Ou seja, o saneamento adequado propicia até mesmo um aumento na produtividade.
Contudo, é preciso olhar para além dos números!
Investir em saneamento básico, para além de uma questão de saúde pública, é uma questão de equidade e justiça social: esse é o primeiro passo para um futuro com perspectivas, que contribui para o crescimento sustentável da nação.
Ignorar essa conexão é negligenciar um fator de transformação social, a espinha dorsal para uma sociedade mais justa.
O papel das empresas como agentes atentos e conectados com as demandas da sociedade e das comunidades é fundamental para promover o diálogo, incentivar a participação social e investir genuinamente para educar, sensibilizar, conscientizar e fortalecer um ciclo virtuoso de progresso acessível a todos, independentemente de localização geográfica e condição social.
Ana Rizzo é relações públicas, atua no setor de infraestrutura com foco no saneamento básico. Formada pela PUC-Campinas, pós-graduação em comunicação e marketing pela ESPM e MBA em Administração e Negócios pela FGV, trabalhou 10 anos como Head de Comunicação em operações privadas de saneamento e há 20 é consultora em comunicação e engajamento atendendo empresas do setor de infraestrutura brasileira.












