Os ataques terroristas às Torres Gêmeas, em Nova York, mudaram a geopolítica e o mundo para sempre. Aquele 11 de Setembro de 2001 se transformou em data icônica no planeta e redesenhou as relações de poder bélico desde então. De alguma forma, boa parte das pessoas se lembrava onde estava quando assistiam, incrédulas, aos choques dos aviões contra os arranha-céus.
É desta forma, chacoalhado pela tragédia, que o campineiro também se sente. Poucas horas antes destes atentados, Campinas procurava, incrédula, explicações para a notícia que não desejava saber.
Por volta das 23h de 10 de Setembro de 2001, o prefeito Antônio da Costa Santos era assassinado com um tiro. A bala transfixiou pelo ombro e foi mortal. Ele havia acabado de buscar um terno no Shopping Iguatemi e sua família aguardava a sua chegada.
Ele jamais chegou, mas sua história e seu legado nunca desapareceram.
É por isso, que uma recente publicação feita pela psicóloga Roseana Garcia em suas redes sociais reavivou aquele dia sombrio e também reacendeu a pergunta que segue sem resposta: “Quem matou Toninho?”.
As autoridades não conseguiram responder à sociedade se o assassinato foi um crime de mando – ou se foi realmente um crime banal, teoria que chegou a ser defendida por integrantes da Polícia Civil. Familiares, integrantes do governo Toninho-Izalene e parte da cidade nunca acreditaram que uma quadrilha poderia atirar naquele veículo Palio porque estaria atrapalhando a sua fuga. Dentro daquele carro estava o prefeito que havia chegado ao poder com um discurso de mudança e esperança.
O desejo de Toninho de confrontar eventuais esquemas está no cerne da dúvida e da desconfiança de Roseana e seus parceiros políticos.
Neste sentido, o post da mulher de Toninho vem carregado de simbolismos. Ao mesmo tempo que recorda que o prefeito faria 73 anos no último 4 de março, a psicóloga e professora faz uma associação de sua tragédia pessoal e do crime que abalou Campinas com o filme “Ainda Estou Aqui”, que acaba de conquistar o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Roseana enxerga uma relação entre as histórias na medida em que, ambos, foram vítimas do Estado brasileiro.
No caso de Rubens Paiva, assassinado pela mão criminosa estatal nos tempos da ditadura militar. Já no caso de Toninho, na vigência da democracia, decorrente da omissão e do descaso do poder público ao não conseguir esclarecer o assassinato.
“Antônio da Costa Santos completaria 73 anos. Coincidentemente, também se encerra hoje (4 de março) o prazo dado pela Comissão de Direitos Humanos da OEA para ratificarmos a denúncia que fizemos contra a omissão do Estado Brasileiro na investigação do seu assassinato”, escreve Roseana.
“Há quase 24 anos, ele foi brutalmente assassinado no exercício de seu mandato como prefeito eleito de Campinas. E, com o tempo, o crime prescreveu. Mas nossa luta por justiça nunca vai prescrever”, continua a viúva.
“Levamos essa denúncia à OEA porque não aceitamos o descaso e a falta de compromisso do Estado em esclarecer esse crime. Porque exigir respostas sobre crimes políticos não é apenas uma questão de memória – é uma necessidade para garantirmos uma democracia real. Nós também ainda estamos aqui”, argumenta Roseana. O post teve centenas de comentário e de curtidas.
“Viva Antônio da Costa Santos! Viva Walter Salles! Viva Fernanda Torres! Viva Família Paiva!”, celebra Roseana, ao encerrar a publicação.
Um dos comentários é do artista plástico Marcos Garcia: “Essa vergonha Campinas e o Estado Brasileiro vão carregar para sempre”, pontua no Facebook.
Não há qualquer sinalização de que haverá novos esforços para a investigação por meio da polícia paulista. Roseana chegou a defender a federalização da investigação, mas ela jamais foi autorizada.
Entre idas e vindas do caso, quem acompanha o noticiário político pode ter enxergado pouca vontade das autoridades federais para entrar no caso. A apuração do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio, seguiu os mesmos passos de pressão, dúvidas e desesperança, até resultar num desfecho de solução.
Por enquanto, a família de Toninho segue a vida agarrando-se à memória de um político que tinha tudo para fazer uma gestão bem-sucedida, aproveitando o seu talento e conhecimento em urbanismo.
“A justiça não foi feita, o crime prescreveu, mas resta uma certeza: ele foi eliminado por não compactuar com os esquemas que dominavam e ainda dominam a política brasileira. Antonio, presente”, escreveu Roseana no ano passado na data dos 72 anos de Toninho.
“Agradeço toda a solidariedade que sempre recebo. Isso me dá muita força para continuar”, reforça Roseana, a cada aniversário. Quando Toninho morreu, ele tinha 49 anos. Já se foram 24 datas sem ele em casa.
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