Ainda há arquivos de protagonistas literários e históricos em que se podem revelar passados importantes. Recentemente, por ocasião do centenário de nascimento, foram as gavetas e caixas empoeiradas do escritor Rubem Fonseca que vieram à baila, material que está sob a responsabilidade de sua filha. Revirar caixas deixadas por produtores e atores intelectuais intensos é sempre um desafio, tanto pelo que revelam, quanto pelo que podem decepcionar. E o autor não está mais aí para fornecer esclarecimentos e defender seu legado.
Um dos livros de contos mais famosos de Rubem Fonseca é “Feliz Ano Novo”, de 1975, que foi logo proibido por conter elementos cotidianos reais, com violência, sexo e conflitos entre classes sociais. Dos romances, os mais conhecidos são “Agosto”, de 1990, em que discorre as conspirações que levaram ao suicídio do presidente Getúlio Vargas e virou minissérie de televisão em 1993, e “O Selvagem da Ópera”, falando da vida do maestro campineiro “Carlos Gomes”. “O Caso Moriel” é outra obra-prima, revelando que o estilo brutalista usado pode ter sido construído quando Rubem Fonseca atuou como comissário de polícia nos anos 1950.
Em 2025 é, portanto, o centenário de nascimento do escritor, falecido em 2020. Como presente para nós, leitores, a editora Nova Fronteira está lançando a obra completa de seus contos, com dois textos inéditos, encontrados por sua filha nos documentos do autor. Revelo o desejo de que seja meu presente de aniversário que se aproxima.
O rompimento com Luiz Schwarcz, escritor e editor da Companhia das Letras, que editava anteriormente a obra de Rubem Fonseca, continua especulativo. O editor disse em entrevista recente ao programa Roda Viva que manterá a questão em sigilo. Ele afirmou que foi ao programa sabendo que perguntariam sobre a questão e todos os entrevistadores sabiam que ele não responderia. Não se sabe se alguma outra informação foi deixada por Rubem Fonseca nos arquivos ora encontrados. Houve muita especulação à época de que o motivo do rompimento tenha sido o pedido do autor para publicar uma outra autora, o que não foi considerado de qualidade por Luiz Schwarcz.
Em reportagem recente, foi noticiado um fato novo quanto à polêmica participação De Rubem no Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), como representante da empresa Light, na qual trabalhava. Pediu demissão da direção do IPÊS assim que soube da participação do instituto no golpe que derrubou João Goulart. Isso aconteceu dias depois do golpe de 1964, segundo carta encontrada, o que contraria outros documentos e declarações de que ele teria continuado a participar no instituto por mais tempo.
Outra questão que ainda ficará em aberto, revelando que, realmente, muito há para ser esclarecido.
Não é improvável que Rubem tenha se afastado da cúpula do IPÊS, mas mantido contato com a instituição, mais por acreditar nos princípios teóricos do Instituto do que na sua atuação golpista. A filha afirmou que está juntando o material achado para editar uma fotobiografia do pai, o que será também bem-vinda. Mas sempre sobrará um papelzinho inédito para aumentar a curiosidade dos estudiosos e admiradores da obra.
Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro da Academia de Letras de Lorena, da Academia Campineira de Letras e Artes, da Academia Campinense de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.












