Não há muitos governos comandados por anciãos na atualidade. No entanto, nosso País e os EUA estão hoje nesta condição, o que demanda debates e reflexões pertinentes.
Na Grécia Antiga, havia o poder da Gerúsia, conselho de 28 anciãos, homens com mais de 60 anos, idade bem avançada para a época.
No Quênia, ainda temos o povo Samburu, estrutura social estritamente etária. É uma gerontocracia viva, onde o prestígio e o poder de decisão proporcionam-se à idade do indivíduo.
Pelo que pesquisei, o governante mais velho, hoje no mundo, é Paul Biya (93), de Camarões.
Este ano, o presidente Lula, do Brasil, faz 81, e Trump, dos EUA, faz 80. São dois octogenários regendo nossos destinos. O primeiro, diretamente, o segundo, indireta, mas influentemente…
Nossa atualidade vive uma “desmistificação” compulsiva, mas, paradoxalmente, esse clima se silencia diante de tabus biológicos, quando estes tocam as esferas do Poder.
Se, por décadas, a Psiquiatria foi a ciência do indizível, hoje ela precisa ser a voz da prudência institucional, especialmente no que tange à longevidade e à saúde sistêmica de quem governa.
Todo cargo de alta responsabilidade exige o pleno vigor de suas funções. No entanto, quando tratamos de líderes que cruzam a fronteira dos 80 anos, a analogia dos “wares” torna-se uma questão de segurança nacional.
A Neurologia e a Psiquiatria cuidam do hardware cerebral e do software mental, respectivamente, mas o suporte físico — o “chassi” desse sistema — exige uma manutenção rigorosa.
A cena política mundial recente é um mostruário dessa finitude. Vimos a queda do líder supremo iraniano, Ali Khamenei (86 anos), que exerceu o poder até os seus últimos dias, quando morreu por ação militar.
Os destinos de nações em ombros octogenários – isso tem um charme, um encanto curioso, é bem interessante, mas também é perigoso.
É perfeitamente possível um líder nesta faixa etária possuir um software de excelência. Contudo, na biologia, o corpo é o suporte do pensamento.
Por isso, devemos solicitar aos governantes idosos que sejam examinados clinicamente a cada três ou quatro meses.
Essa defesa de exames clínicos trimestrais ou quadrimestrais não deve se limitar a uma única especialidade.
Se for alguém do sexo masculino, é imperativo um acompanhamento geriátrico global e especializado: a cardiologia monitorando o motor vital; a urologia e a reumatologia cuidando do conforto e da autonomia; a oftalmologia garantindo a visão nítida do mundo. E a neuropsiquiatria avaliando a cognição. O “mistério” da alma não pode servir de blindagem contra a realidade da senescência.
O risco da “imunização cognitiva” aqui é político e ameaçador: seguidores e ideólogos tendem a ignorar sinais óbvios dos declínios físico e mental. Para o fanático, o ídolo é eterno. Para a Medicina da Alma, o líder é um ser humano sujeito à neuroplasticidade e, também, ao desgaste somático irreversível.
Se um piloto de aeronave submete-se a avaliações médicas exaustivas para proteger centenas de vidas, por que o condutor de uma nação estaria isento de provar sua higidez sistêmica e cognitiva a cada três (ou quatro) meses?
Para compreender esse desafio, recorramos a mestres do psiquismo que olharam para as entranhas do homem racional e emocional.
Sigmund Freud, ao desenvolver o “Mal-Estar na Civilização”, alertava-nos sobre o narcisismo e a pulsão de poder que podem cegar o indivíduo para suas próprias limitações.
O líder, muitas vezes envolvido por uma aura de infalibilidade, pode cair na armadilha de acreditar que seu desejo de potência é superior à sua fragilidade biológica. Sem o exame da realidade — o princípio freudiano por excelência —, o poder vira delírio.
Viktor Frankl, o pai da Logoterapia, ensinou-nos que a saúde mental está ligada à “vontade de sentido”. Um octogenário pode ser movido por um sentido de missão extraordinário, mas Frankl também reconhecia a dimensão somática do ser humano. Se o corpo padece ou a cognição falha, o sentido se perde no nevoeiro da confusão mental. A lucidez não é apenas um desejo; é um estado fisiológico que precisa ser verificado.
Um cérebro pode estar politicamente ativo e, ainda assim, habitar um corpo em sofrimento, o que compromete o discernimento sob pressão.
A técnica deve servir ao humano, garantindo que a sabedoria do ancião não seja obscurecida pela dor ou pela fadiga. Devemos proteger o território da verdade biológica, pois é nela que reside a segurança coletiva.
O sentido da vida pública exige transparência total. Enquanto a ideologia busca a preservação do ídolo, a medicina busca a preservação da lucidez e da integridade física.
Aos 80 anos, o poder deve ser acompanhado pelo olhar atento da ciência multidisciplinar, a cada estação. É o preço da liberdade e a garantia da dignidade de quem governa e, sobretudo, de quem é governado.
Precisamos, no nosso contexto nacional, de um esforço geral para criarmos os exames médicos sazonais para todos os candidatos a cargos eletivos, especialmente os que estejam acima dos 75 anos.
O exame médico não deve ser visto como uma “sentença de interdição”, mas como um instrumento de preservação da dignidade e do legado.
A ciência protege o líder de seus próprios pontos cegos biológicos e psíquicos, de modo que a obrigatoriedade dos exames caracteriza um suporte de estado, e não em uma afronta pessoal ao senescente que pilota ou pilotará uma nação.
Embora o check-up biológico seja vital, ele é insuficiente para diagnosticar a integridade do espírito. Carecemos de um “hemograma da ética” ou de um marcador bioquímico que denuncie a patologia da corrupção.
A corrupção, infelizmente, é uma moléstia da alma para a qual não existe exame laboratorial ou dado objetivo que a revele antes que o dano social seja consumado.
Portanto, tentemos eleger os candidatos mais mental e fisicamente saudáveis, com certa intuição de que possam resistir mais resilientemente às manobras imorais e à erosão ética.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor












